A desigualdade é a pior doença infantil

27.12.2013
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“Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade.”

A reportagem é do Jornal do Commercio, Recife. Mas poderia ser de muitas outras cidades em nosso país.

Uma sociedade que permite, tolera, aceita a degradação humana a este ponto não é uma sociedade livre. Uma sociedade que permite que crianças vivam essa miséria de forma tão absoluta é uma sociedade negligente.

A desigualdade, mais que a pobreza, nos faz mal a todos. Há anos trabalho com desigualdade e seus efeitos na saúde. Ela destrói e deteriora todo o tecido social, transforma o outro no inimigo, é mãe do corporativismo, da corrupção, do patrimonialismo, da noção tão brasileira que o que é público pode ser privatizado em proveito próprio.

Quanto mais desigual a sociedade – quanto maior a diferença de acumulação de dinheiro entre os ricos e sua distância para os mais pobres – pior é a vida. Os indicadores mais importantes de saúde e qualidade de vida variam em razão diretamente proporcional à desigualdade, mesmo nos países ricos. Por isso na Finlândia ou no Japão se vive mais e melhor que nos Estados unidos, apesar da renda média dos EUA ser muito melhor. Pra falar a verdade, na Costa Rica, que tem uma fração mínima da riqueza americana, se vive mais e melhor que nos EUA em muitos aspectos. Os números é que dizem. No Brasil, vivemos menos, vivemos pior, ficamos mais doentes e pior assistidos, sofremos violência e vivemos com medo, em grade parte por causa da desigualdade.

Apesar de anos de políticas sociais que reduziram a pobreza, ainda somos campeões em desigualdade. E como podemos manter privilégios absurdos para uma elite num país onde a constituição é igualitária? Com instituições fracas: justiça lenta e que só prende os pobres, polícia corrupta que só defende os ricos, serviços de saúde e educação ruins para todos porque os ricos podem pagar para ter o seu “particular”. O que não percebemos é que mesmo se fugimos para escolas privadas, num pais que não educa seu povo, os políticos sujos continuarão se elegendo; se a justiça é ineficaz continuaremos vítimas da impunidade, e a violência e o crime organizado serão facilitados; que num ambiente de privilégios garantidos, oligopólios e corporações serão livres para explorar e roubar o patrimônio público; que se o dinheiro dos impostos é roubado, é toda sociedade que sofre com aquilo que poderia ser construído e não é, com os serviços que deveriam ser prestados e não são; se o transporte público é ruim, nossos carros particulares ficarão parados para sempre nos engarrafamentos; se os muito ricos – que aumentaram tanto recentemente – podem pagar o dobro ou o triplo por qualquer bem ou serviço, os preços sobem para todos; se grupos de interesse se apropriam do nosso capital ambiental, são nossos filhos que sentirão falta dele. A desigualdade rouba nosso presente e nosso futuro.

Enquanto isso …
“Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina. Anfíbios e miseráveis catam sonhos onde o pesadelo é retrato soberano. São três meninos da comunidade Saramandaia, melados até o pescoço da lama do abandono, numa área que o prefeito da capital, Geraldo Julio (PSB), elencou como prioridade de sua gestão e que, até agora, não viu resultados senão promessas.

… O trio se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes”.

Faz parte de nossa tarefa como pais e mães ajudar nossos filhos a entenderem que a desigualdade faz mal. Que é preciso cuidar do outro para cuidar de si mesmo. Que a participação é uma palavra chave na transformação necessária de uma sociedade como a nossa, tão carente de novas utopias. Felizmente, iniciativas da sociedade civil começam a surgir exigindo melhor governança nas cidades: mais transparência, mais canais de expressão popular, e a destinação do dinheiro público para a uma agenda pública, orientada para a equidade e a sustentabilidade.

(aqui um bom exemplo: a Rede Social brasileira de Cidades Justas e Sustentáveis - http://rededecidades.ning.com/)

Diz, Mandela:
“Foi durante esses longos e solitários anos que a minha fome pela liberdade de meu povo tornou-se uma fome pela liberdade de todos os povos, brancos e negros. Eu compreendi que o opressor deve ser libertado, da mesma forma que o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro de ódio, ele está trancado atrás das grades do preconceito e da estreiteza mental.

Eu não serei verdadeiramente livre se estiver tomando a liberdade de outra pessoa, da mesma forma como eu não serei livre se a minha liberdade me é tomada. Oprimidos e opressores são igualmente roubados de sua humanidade.”

https://www.youtube.com/watch?v=u_HFnIxlywU&feature=player_embedded#at=313

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