Agrotóxicos e Saúde Infantil não combinam

06.07.2015
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Você já ouviu falar que vacinas causam autismo? Está preocupada por isso? Está provavelmente procurando no lugar errado.

O aumento de casos de autismo impressiona as autoridades médicas dos EUA. Um aumento de cerca de 30% foi detectado em apenas um ano: uma em cada 68 crianças seriam autistas. Sabemos que uma boa parte desse incremento se deve a uma maior atenção ao diagnóstico, ou a critérios mais flexíveis para rotular a síndrome de Espectro Autista (de todo modo, é importante que haja atenção e sensibilidade para o diagnóstico precoce, e para a intervenção precoce). Mas que há um aumento progressivo de casos, resta pouca dúvida.

Um estudo recente analisou os fatores de risco para o autismo. Realizado pelo Instituto MIND na Califórnia, avaliou os períodos de aplicações de pesticidas em locais como campos de golfe, parques, áreas agrícolas, beiras de estradas, cemitérios e escolas. Os pesquisadores acompanharam mulheres grávidas e observaram seus locais de moradia, de acordo com sua proximidade com a aplicação de agrotóxicos.

O estudo demonstrou uma associação direta entre morar a uma milha ou menos de distância de uma aplicação durante a gravidez, e o risco de autismo. Se houve uma exposição aos organofosforados em qualquer momento da gravidez, o risco do bebê desenvolver um quadro de autismo aumenta 60%. Se a exposição foi durante o segundo trimestre e ao clorpirifós, um organofosforado muito usado no Brasil, detectou-se um aumento de 230% no risco.

O estudo não demonstra causalidade, mas associação. Mas 230% não é pouco. Além disso, o Clorpirifós é uma neurotoxina conhecida e outros modelos estudados pelo mundo o tem associado ao autismo.

No entanto, nada é feito para proibir ou sequer restringir seu uso. Assim acontece no mundo da chamada “Saúde Ambiental”. Novas substâncias artificiais são lançadas ao mundo diariamente. Na vida marcadamente urbana que caracteriza nosso tempo, temos contato cada vez maior e mais prolongado com elas. E seus efeitos não são testados – não há dinheiro, não há legislação eficaz, e a pressão comercial para a liberação rápida é enorme. Calcula-se que sabemos muito pouco sobre os riscos de toxicidade, e mesmo assim, de uma pequena fração das dezenas (ou centenas) de milhares de moléculas artificiais com que convivemos diariamente – e de forma insupeitada.

Elas estão na espuma dos travesseiros e colchões onde passamos 1/3 de nossas vidas; nas embalagens de nossa comida e nos seus corantes e conservantes; na fragrância de nossos perfumes e cosméticos; em todos os plásticos que nos cercam, de brinquedos aos carros, e muito mais. Nas mamadeiras de nossos bebês… alguém se lembra do caso recente do BPA?

Somos literalmente cobaias de uma indústria química, que se vale da desregulamentação do setor para sequer advertir famílias do perigo (muitas vezes conhecido) que representam seus produtos. Para crianças, organismos em desenvolvimento e muito mais sensíveis, o risco é ainda mais grave. As poucas normas relativas à toxicidade usam padrões de adultos, que são insuficientes para proteger nossos pequenos.

O aumento exponencial de doenças como autismo, câncer, asma, defeitos congênitos nos últimos anos corre em paralelo – e em alguns casos, já comprovadamente – com o aumento da presença destas substâncias na vida humana.

O jeito? É difícil se isolar do mundo dos produtos artificiais. Mas você pode fazer algo: adote o princípio da precaução. Evite o que for possível. Opte pelo tradicional, natural, orgânico. Vai fazer bem a sua família, a você, e com certeza, à nossa sociedade. Toda opção por uma vida mais saudável torna nosso planeta um pouco mais habitável também. Em breve mais reflexões sobre esse tema.

Bibliografia: Shelton JF, Geraghty EM, Tancredi DJ, et al. Neurodevelopmental disorders and prenatal residential proximity to agricultural pesticides: the CHARGE study. Environ Health Perspect. 2014 Jun 23. [Epub ahead of print].

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