Alimentação saudável e atividade física na infância

01.12.2015
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(Saga em quatro capítulos)

Comecei a escrever esse texto pensando numa questão que me foi colocada diversas vezes nos últimos tempos – a obesidade infantil. Ao escrever, percebi que estava falando de algo muito mais amplo: a importância da boa alimentação, e também da atividade física, para a saúde de nossas crianças – e de nós todos, afinal. Dos erros que cometemos, das responsabilidades compartilhadas, e das reflexões necessárias para escaparmos das armadilhas. Fugindo das “dicas” superficiais, conversando de forma aberta e reflexiva sobre as possíveis soluções. Como o texto foi ficando grande, dividi em capítulos. Neste primeiro os problemas e suas causas. No próximo, soluções, e assim por diante. Espero que seja útil para você.

Capítulo I:
Você não é culpada – mas pode fazer muito para ajudar

Ser mãe é não só padecer no paraíso, mas viver mergulhada em culpas. Se dei mamadeira, não fui capaz de amamentar. Se meu filho faz birra, não soube educar. Se ele está gordo, errei na alimentação. Se vai mal na escola, não tem modos, é tímido, não dorme, não come legumes, abusa da chupeta, tira meleca, mordeu a amiguinha… Até se ficou doente, da gripe à pneumonia, a mãe está sempre se perguntando onde errou. Em ultima instância, tudo é culpa minha.

Não é. Essa é uma das poucas coisas que posso garantir, depois de 30 anos de pediatria e estudo cotidiano da infância e da família, aqui e em muitos países.

Uma imensa multiplicidade de fatores influencia o comportamento, a personalidade, o peso, a saúde de nossos filhos e filhas. Há a genética, tão importante e tão negligenciada (tá bom, se você realmente quer se sentir mal, pode pensar que a genética é justamente culpa sua – ou do seu parceiro…). Há o meio externo, a cidade onde vive, a classe social, a cultura no qual está imerso, a TV, os amigos, a publicidade, a escola….

Mas hoje quero escrever sobre um tema recorrente da atualidade: o sobrepeso infantil. Tema muito importante. Não há duvida que nossas crianças estão comendo mal e engordando, que a epidemia de obesidade avança brutalmente no mundo inteiro, e que no Brasil esse avanço seja impressionante. Segundo um estudioso do assunto, Vítor Matsudo, obesidade e sobrepeso infantil cresceram 1.000% no Brasil em 40 anos. Quase 40% de nossas crianças apresentam obesidade e sobrepeso. Entre de 5 a 9 anos, 15% são obesas – é impressionante. Aliás, mais da metade da população do país está acima do peso.

A coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, Patrícia Jaime, faz um bom resumo do problema no Brasil, e afirma que pesquisas mostram que parcela importante das crianças não consome de forma regular alimentos básicos e in natura, como legumes, verduras e frutas. “Obviamente isso pode ser explicado por uma mudança no padrão de consumo da população brasileira que resultou em uma diminuição do consumo dos alimentos básicos, tradicionais, da dieta brasileira, que dialogavam com nossa cultura alimentar, de cada região, em favor da introdução de alimentos cada vez mais processados, industrializados, modificando não só a qualidade da dieta do ponto de vista nutricional, mas os comportamentos e os hábitos alimentares, como comer em casa, comer em família, o comer compartilhado, por uma substituição por comer em frente à televisão, por comportamentos que não são saudáveis.”

Não é difícil entender porque as crianças estão engordando – e porque não é culpa sua. E melhor, entender que por outro lado, você é sim responsável pela saúde do seu filho, e que com gestos cotidianos – alguns muito simples, outros mais difíceis – pode ajudá-lo a ser mais saudável e feliz. Outros gestos são coletivos, políticos – uma questão que faço sempre questão de frisar, e sou invariavelmente combatido pela visão simplista dos apologistas do “livre mercado”: “a decisão é sempre individual”; “marketing não influencia”; “temos que preservar a liberdade de escolha” – como se os bilhões investidos em propaganda de produtos comprovadamente nocivos não fossem justamente a pior ameaça à liberdade de escolha.

Vamos pensar então a influência da cultura, da classe, do mercado, da propaganda, da mídia em nossas escolhas (aliás, o filme Muito Além do Peso é uma referência obrigatória neste assunto, se não viu, assista aqui), e como podemos escapar das armadilhas propostas no cotidiano para criar filhos mais saudáveis.

O que realmente faz diferença na manutenção de um peso adequado, de um corpo em boa forma? Sabemos todos: alimentação e atividade física. Mas saúde vai muito além disso, de atitudes individuais – envolve muitos aspectos da nossa qualidade de vida, e em especial dimensões coletivas: sociedade e Estado tem que estar presentes e atentos para produzir as condições que permitam a indivíduos e comunidades serem mais saudáveis. De todo modo, sabemos que alimentação e atividade física estão entre os mais importantes determinantes da saúde, e ligados às principais doenças dos nossos tempos: câncer, infarto, derrame, depressão, diabetes… por isso é tão importante ajudar nossos filhos a desenvolverem bons hábitos e uma visão crítica, reflexiva, nestas duas áreas. Para isso, nós, pais, temos que desenvolver essa visão. E um olhar atento para a cultura em que estamos imersos. Lembrando que essa cultura, especialmente nos dias de hoje, é produzida em grande parte pelos meios de comunicação e pela publicidade/mercado.

Em relação à alimentação, não é só o que comemos o mais importante. Como comemos, nossas atitudes, e portanto, como ensinamos nossos filhos a comer – a dimensão emocional / psíquica da alimentação é tão ou mais determinante da sua saúde. Além disso, nossas escolhas são muito influenciadas pelo meio, em sua multiplicidade de fatores: a dimensão social / cultural.

Vejamos algumas destas questões:

1 – Publicidade & cia: como disse, são bilhões de dólares investidos em propaganda para nos convencer suavemente a comprar o que a indústria produz. Para nos fazer simpatizar e aderir à marcas. Para pensarmos que alimentos nocivos são saudáveis. As estratégias são inteligentíssimas, e já ultrapassaram em muito de sofisticação os anúncios clássicos: as mensagens estão oculta nas redes sociais, no merchandising e em vídeos fofos. Hoje somos nós que fazemos o marketing dessas empresas, e de graça. Algumas propagandas são francamente mentirosas e deveriam ser simplesmente proibidas. Alguns exemplos – há alguns meses escrevi aqui sobre o Néctar Kapo/Del Valle/Coca-Cola – uma das bebidas mais açucaradas e nocivas do mercado – utilizar apresentadoras de programas de maternidade e saúde para vender seus venenos com imagens de frutinhas, jardins e pomares naturais, e o vergonhoso slogan “seu filho vai gostar de frutas com Kapo Del Valle”. A Nestlé, escolhendo a cada ano as mesmas atrizes eleitas como musas da amamentação nas campanhas do Ministério da Saúde, para venderem seus leites e farinhas açucarados – veja aqui; ou induzindo pediatras a prescreverem farinhas açucaradas e ultra-processadas como Neston e Mucilon. Ou a Coca Cola nos convencendo que as calorias do seu açúcar podem ser queimadas dançando por meia hora ou passeando com o cachorro – quando sabemos que as calorias vazias e tóxicas dos refrigerantes são muito mais nocivas do que a de outros alimentos. E ainda nos jogando a responsabilidade de “resolvermos” o problema criado por ela e seu produto fazendo ginastica – e se não o fizermos, somos preguiçosos, e claro: culpados.

E o pior: a publicidade dirigida à criança, que é covarde pois explora sua incapacidade de distinguir fantasia de realidade e cria nelas uma conexão emocional com o produto, muito difícil de ser quebrada pela família. Associam achocolatados ultra-doces à energia e superpoderes, salgadinhos entupidos de calorias, sal e açúcar à esperteza e a enganar os pais, ou lanchinhos fast-food, salsichas e nuggets a personagens queridos.

2 – O poder da indústria: a sofisticada ciência da engenharia alimentar usa técnicas avançadas e investe bilhões em pesquisa para aperfeiçoar alimentos irresistíveis – criados para viciar. Suas principais armas: açúcar, gordura saturada, açúcar, gordura trans (aliás, saiba que “zero gordura trans” nem sempre é verdade – falaremos disso em outro momento), açúcar, glutamato, açúcar e muito sal. Ah, e mais açúcar. Outros elementos viciantes: a consistência (crocante por fora / molinho por dentro), a textura… Não importa que faça mal – importa apenas que venda muito. Uma vez “iniciada” nesse tipo de alimentos na sua rotina, será cada vez mais difícil para a criança aceitar o sabor natural da comida mais saudável. E na nossa falta de tempo e paciência, acabamos por ceder e cada vez mais servimos comida industrializada, reforçando o ciclo vicioso. Em breve, a alimentação da criança poderá se resumir a nuggets, miojo e sucrilhos: além do sobrepeso, ela estará desnutrida. Já vi chegarem várias famílias assim no consultório.

3 – Vida Urbana: a vida moderna nos dificulta a tarefa fundamental da alimentação – cozinhar. Não vivemos mais em casas com famílias ampliadas, onde sempre havia uma avó (ou várias) dedicada a essa tarefa fundamental. Vivemos sozinhos, chegamos tarde, cansados de trabalho em excesso e engarrafamentos, não temos como pagar uma empregada, e usamos cada vez mais comida industrializada. E como diz o jornalista especializado Michael Pollan, “qualquer alimento feito por um humano será sempre mais saudável do que o feito por uma corporação”.

Aliás, é importantíssimo dizer que um alimento “tóxico” ocasional numa rotina saudável não vai gerar problemas sérios – isso acontece quando ele passa a predominar, a ser a regra. Alimentos elaborados para o prazer são frequentemente nocivos, e isso nos dá duas alternativas possíveis: aprender a obter prazer de alimentos saudáveis, o que é indispensável; e sim, relaxar vez por outra numa torta, um biscoito, um sorvete, fora da rotina, o que é aceitável e mesmo saudável. Radicalismo e proibições absolutas podem acabar provocando ainda mais o desejo, ou deixando a criança muito deslocada entre seus pares, resultando numa relação de mágoa e raiva para com a alimentação saudável.

4 – O comércio: no supermercado, as prateleiras resplandecem de torradas, bolos prontos, geleias, salgadinhos, sucrilhos, biscoitos, lácteos super-adoçados, nuggets e miojos. Até chegar no brócolis e no frango, você já salivou e encheu o carrinho dos produtos da indústria – aliás mais baratos, porque subsidiados pelos governos graças ao lobby das grandes corporações nos EUA, como já foi mostrado em vários documentários sobre o tema. Nos restaurantes, o absurdo “cardápio infantil”: comida bege, sem graça, cheia de frituras, açúcar e farinhas em vez da diversidade e da delicia de comidas variadas e saborosas. Afinal, porque mesmo uma criança de sete anos não pode comer a mesma comida que os pais?

5 – E a hora da refeição em casa? Momento de conversa, brincadeira, convívio, intimidade em volta do alimento, desenvolvendo na criança uma relação saudável com o ato de comer, de presença e consciência, de alegria e afeto? Só que não. Na maioria das famílias, refeição em conjunto é coisa do passado: vida moderna. Nos pequenos, assim que o apetite começa naturalmente a diminuir (saiba: lá pelos dois anos a criança come menos do que com 9 – 10 meses, e seu apetite é mais esparso, distribuído ao longo do dia), começam as angústias, e as estratégias para o bebê “comer mais”. Distrair, forçar, empurrar, TV, tablets, enganar, correr atrás… a angústia dos pais é percebida pela criança, que a torna a marca da refeição. Ela explora esse sentimento de forma inconsciente, recusando o alimento e gerando mais angústia – que afinal, é uma forma de energia afetiva. Muitas vezes os pais acabam por oferecer o leitinho ou o biscoito, em seu desespero. Se instalam assim ciclos viciosos que acabam em situações as vezes absurdas (crianças de dois – três anos ditando o cardápio das famílias), e nocivas para a relação futura com o alimento – associado à tensão e sentimentos negativos. Para os mais velhos, refeições isoladas, solitárias, com TV ligada ou tablet na mão: comer sem consciência. Ou pior, refeições em família, mas solitárias – onde cada um se distrai com seus whatsapps, youtubes e facebooks.

6 – Não podemos esquecer o papel das escolas. Como ouvido no Muito Além do Peso, a gente não lida com matemática, química e geografia todos os dias. Mas lidamos com comida ao menos 3 vezes por dia. Então como compreender que as escolas não ofereçam educação nutricional? É uma habilidade mais que fundamental para a vida. Como seria a educação sexual, ética, no trânsito, esportiva, artística, sobre drogas e outros temas da saúde, áreas em que a educação brasileira é profundamente deficiente. Pior ainda: como entender que creches e escolas ofereçam açúcar em quantidades industriais a bebês de seis meses, como denunciado aqui há poucas semanas? É claro que a solução para esse problema não é individual. E se você mandar seu filho para a escola com um potinho de aipo e tomate cereja em meio aos salgadinhos de plástico ou biscoitos recheados dos amigos, o que vai acontecer? 1) ele vai te odiar; 2) virar o ET da classe; 3) pegar a comida dos amigos e 4) você vai criar fama de maluca ou radical. A solução passa por muita conversa, por um processo participativo. E sim, por opor alguma resistência pessoal também.

7 – Ainda existem profissionais de saúde, como médicos e nutricionistas, que prescrevem alimentos sabidamente nocivos, como farinhas açucaradas, geleias e açúcar em suas diversas formas. Uma pena.

8 – Classe social: é muito mais difícil para pessoas pobres comer de forma saudável e alimentar bem seus filhos. Começando pela falta de informação e pela maior susceptibilidade à propaganda. A dificuldade no acesso a bons alimentos e seu alto preço também são problemas sérios. Em regiões de periferia urbana e favelas, as vendas locais só oferecem produtos industrializados de péssima qualidade (tubaínas, embutidos, massas e biscoitos, além de balas e bebidas alcoólicas) – e quem pode pagar um ônibus para comprar legumes neste contexto? É tarefa fundamental das politicas públicas de saúde oferecer esse acesso, a preços subsidiados sempre que possível – a economia com o tratamento de doenças certamente compensa o gasto, além do imperativo moral de proteger populações mais frágeis.

9 – Finalmente: alimentar filhos é a tarefa que simbolicamente representa a competência mais profunda, mais biológica da maternidade/paternidade, o sustento nutritivo da cria. Na sua angústia em realizar esta tarefa, as famílias esquecem ou desprezam seu melhor aliado: a fome. Ela é o instinto mais primário do ser humano, junto com a sede. Nenhuma criança deixa de comer um bom prato de comida se estiver realmente com fome. Seja o que for que está no prato. Em vez de trocar o almoço de legumes, arroz, feijão e franguinho por uma mamadeira, porque não esperar a criança pedir comida, quando estiver com fome? Tudo seria mais fácil.

A lista de armadilhas nunca se esgota. Se pensar em dificuldades que não estão listadas, envie-nos uma mensagem.

No próximo capitulo, discutiremos algumas soluções para os problemas apresentados aqui. Material que contribua para que famílias possam promover a boa nutrição de seus filhos e filhas. E muito em especial, promover uma atitude saudável e o desenvolvimento de bons hábitos na relação com a comida – que serão importantes e definidores de nossa saúde pelo resto de nossas vidas.

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