Amamentação no Século XXI: a saga em cinco capítulos

29.07.2013
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Inspirado por novos estudos que demonstram a superioridade do leite materno e a sua importância para a saúde do bebê e da mãe, e mesmo da sociedade (o último, publicado na respeitada revista BMJ, demonstra que amamentar facilita a ascensão social) – e por minha amiga e parceira Chris Nicklas, que acaba de criar um site sobre amamentação (www.amamentareh.com.br), vou publicar aqui um texto onde discuto porque amamentar se tornou difícil para muitas mulheres, numa visão mais ampla e reflexiva que a habitual. Uma conversa que vai desde os muitos fatores (muitos deles “confidenciais”) que influenciam o desejo e a possibilidade de amamentar, até os pequenos segredos que ajudam no dia a dia com o bebê. Como texto ficou grande para padrões de internet, vou publicá-lo em capítulos temáticos. A seguir, no próximo post, o primeiro capítulo.

Amamentação no Século XX!

Capitulo I

O Massacre das Mulheres

Amamentar: tão natural, tão importante. Tão bom para o bebê, tão bom para a mãe. E tão aparentemente simples.

E todos/todas sabemos: não é. Olhamos para nosso filho, um bebê pequeno e frágil, e uma angústia do tamanho do mundo desaba sobre nossos ombros: vou ser capaz? Vou ter leite bastante para meu filho? Ele vai sobreviver e crescer só mamando o seio, será?

E por que é assim? Por que não é fácil e natural? Para entender nossas dificuldades e angústias, é preciso – sempre, aliás – ir além do nosso próprio casulo, nossa família e nosso tempo, e ampliar o olhar para o contexto cultural e histórico em que estamos inseridos. O tema é longo e complexo, por isso vamos escrever em capítulos. Nesta era da internet, vamos ver quem consegue ir até o final… O tema é também bacana e relevante, por isso talvez valha a pena.

No final do século 19 o aleitamento materno perdia prestígio entre a burguesia. Era considerado uma prática de mulheres pobres. Continuou em declínio nas primeiras décadas do século 20, quando começa a comercialização do leite em pó adaptado para bebês. Sem dúvida, na época, um grande avanço científico – a salvação para bebês que não podiam ser amamentados por morte ou doença da mãe.

Mas à medida que as vendas avançavam, a ganância da indústria aumenta: ela percebe que o grande lucro virá quando todas as crianças usarem suas fórmulas, não apenas as que precisavam por algum motivo. E começa a construção da cultura do leite em pó: disseminando a idéia de que o leite materno é fraco, ruim, insuficiente para um bebê realmente forte e saudável (lembrem da imagem do bebê gorducho, ícone de saúde na época). Bom mesmo era o leite em pó para bebês, essa maravilha da ciência. No pós guerra as vendas explodem e a geração baby-boomer (nascidos no pós-guerra) dos EUA e outros países pouco conheceu o leite materno. Nos anos 60, mais de 70% dos bebês americanos recebiam fórmulas, graças a agressivas campanhas de distribuição de leite em pó nas maternidades e ao contínuo esforço de propaganda para desacreditar o leite materno. A maioria das mulheres desta geração acreditava completa e acriticamente que o leite em pó era melhor que o materno.

Vejam que estamos falando de uma modificação cultural tão profunda que provoca a alteração de um comportamento biológico inato e tão primário quanto alimentar seu próprio filho (algo que denomina nossa classe científica: mamíferos). Uma incrível vitória dos interesses da indústria e do capitalismo sobre a natureza.

A partir dos anos 60 e do advento da pílula, o número de nascimentos começa a cair nos países desenvolvidos e o movimento feminista levanta a bandeira da autonomia e dos direitos da mulher – inclusive o direito de amamentar seus filhos, de poder sustentá-los sem a ajuda de leite de outros animais. As indústrias – Nestlé, Mead Johnson e outras – partem para uma agressiva campanha de vendas nos países em desenvolvimento, na época miseráveis em sua maioria, com altas taxas de fertilidade. Distribuíam mamadeiras e amostras de leite gratuitas em maternidades, sempre lembrando às mães que leite materno não era “forte” o bastante.

Só que, neste contexto social, as coisas eram um pouco diferentes. Chegando em casa, os bebês sugavam as mamadeiras e começavam a fazer a previsível “confusão de bico” – uma dificuldade de sugar o seio quando se oferece mamadeira a um recém-nascido. Isso era confundido com uma recusa do seio (confirmando que o leite materno era ruim), e as mulheres ofereciam mais leite em pó. Só que a segunda lata não era gratuita – custava caro, e a tendência era diluir com mais água; e a água era suja e contaminada muitas vezes… e desta forma estima-se que milhões de crianças tenham morrido de diarréia e desnutrição. A Nestlé chegou a receber o apelido de baby-killer dos movimentos sociais pró-amamentação.

A partir da década de 70 começa a ressurgir o interesse na amamentação – do movimento feminista à ciência médica, cada vez mais se percebia o óbvio: o leite materno era o melhor alimento para o bebê. As vantagens eram demonstradas maciçamente por pesquisas. De início referiam-se à saúde na infância, mas depois estudos de longo prazo demonstravam benefícios para a saúde cardio-vascular, na prevenção do câncer, diabetes e obesidade, além de grandes vantagens no bem estar das mães que amamentavam.

Organizações da sociedade civil denunciam então as práticas perversas dos fabricantes de leite; um boicote contra a Nestlé começa em 1977 e se estende até hoje. A OMS cria em 1981 um código de comercialização para o leite em pó, proibindo a propaganda direta ao público, e exigindo que se colocasse um aviso nos produtos de que o leite materno era o melhor alimento para o bebê; e que as fórmulas deveriam ser prescritas apenas por profissionais de saúde.

As empresas mudam então suas estratégias de marketing: em vez de vender formulas para as mães, venderiam para os pediatras. A idéia era conquistar a simpatia desses profissionais com tanta autoridade no que se refere à saúde da criança, e capazes de recomendar as suas fórmulas mesmo diante das evidências crescentes de que o leite materno era o alimento ideal para o bebê.

Começa então uma saga (também muito impressionante e vitoriosa) que vai até nossos dias, e gera situações inacreditáveis, especialmente no Brasil. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

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