Amamentação no Século XXI – Capítulo II

29.11.2015
, , , , , , , , , , ,  - 

Capítulo II da saga: importante para você entender a relação da indústria com a medicina, e como isso faz dos médicos uma causa importante de desmame precoce no Brasil.

Amamentação no Século XXI

A Rendição dos Médicos

No final do último capitulo, contamos como as empresas fabricantes de leite em pó mudaram suas estratégias: em vez de vender formulas para as mães, venderiam para os pediatras.

(Um adendo ao texto, hoje: as empresas de leite em pó fazem SIM propaganda ao consumidor, velada sob a forma como elaboram suas embalagens e em especial os nomes utilizados: Pro, Expert, Premium, e Supreme. Enquanto isso, o leite materno não é “supreme” nem “pro” – é amador. Vem com muito amor e é infinitamente superior às fórmulas em qualquer aspecto.)

A idéia era conquistar a simpatia desses profissionais com tanta autoridade no que se refere à saúde da criança, e capazes de recomendar as suas fórmulas mesmo diante das evidências crescentes de que o leite materno era o alimento ideal para o bebê.

A Nestlé foi a mais agressiva nesta estratégia. Em nosso pais, ela conseguiu dominar inteiramente a Sociedade Brasileira de Pediatria. É uma situação muito curiosa: o discurso da sociedade é fortemente favorável ao leite materno, com recomendações de amamentação exclusiva até os 6 meses, comitês e documentos, bandeiras pró amamentação com a da licença de seis meses para as mulheres, etc. Por outro lado, quase todos os documentos, manuais, avisos de congresso, circulares, cursos de atualização, enfim, qualquer publicação da SBP tem gravado o selo Nestlé. A maioria das atividades da SBP tem o patrocínio da Nestlé. Mais publicações e de aulas são realizadas sobre os melhores “substitutos do leite materno”, do que as que ensinam como apoiar efetivamente uma mulher que amamenta.

A Nestlé oferece um curso anual de atualização em pediatria, em parceria com a Sociedade, que é tão ou mais popular que os principais congressos. Aqui no Pediatria Integral, fiz uma reportagem sobre a impressionante infantilização dos pediatras nesta ocasião: adultos participando de joguinhos infantis e competições de perguntas sobre os produtos Nestlé para ganhar bichinhos de pelúcia e sorvetes, consumindo biscoitos e leitinhos, e pior, comendo papinhas de bebê servidas por chefs em travessas de prata. As cenas eram patéticas – vocês podem conferir as fotos aqui no PI. A grande mãe tratando bem seus bebês, e esperando em troca uma enorme gratidão e reconhecimento.

Além da Nestlé, outras empresas como a Danone, Mead Johnson e Abbot usam o mesmo expediente. EM congressos, videos e cartazes promovem as qualidades das fórmulas: melhor desenvolvimento psicomotor, saúde gastro-intestinal, redução de alergias, prevenção da obesidade, defesas imunológicas: exatamente as qualidades onde o leite materno é muito superior – mas ele não é citado, fazendo com que o pediatra associe, em sua memória, essas qualidades às fórmulas anunciadas. Todas as empresas fazem visitas constantes aos consultórios pediátricos oferecendo informações sobre seus muitos tipos de leite e suas inúmeras vantagens uns sobre os outros, todos tão “parecidos com o leite materno”. A amamentação é obviamente ignorada nessas visitas que muitas vezes incluem distribuição de brindes, convites para almoços em churrascarias e mesmo ofertas de visitas às sedes no exterior ou viagens com despesas pagas a congressos.

Essa estratégia comercial segue o principio sócio-comportamental da “reciprocidade”. Quando alguém lhe oferece presentes, graças e gentilezas, você se sente em dívida com quem fez o gesto; cria-se uma simpatia difícil de resistir. Devolver as gentilezas é quase inevitável. É claro que este não é o único motivo, mas este é certamente um dos fatores que explicam tantas prescrições de leite em pó, mesmo ainda na maternidade. Uma estratégia cruel da indústria, mas extremamente e inteligente eficaz para vender os seus produtos e sabotar a amamentação. Da mesma forma que a imagem do leite em pó como sendo “mais forte” minava a confiança das mulheres em seu leite, também a prescrição apressada ou descuidada de complementos (“se você achar que tem pouco leite”, “se ela estiver com muita fome”… “uma mamadeira caso você precise”…) é um fator claro e freqüente para que a mulher deixe de amamentar. Se em vez da mamadeira de leite artificial que mina a confiança da mulher, oferecermos informação, apoio e o carinho e técnica de instituições e profissionais especializados no apoio à amamentação, o quadro certamente será outro.

Portanto vemos aqui, de saída, duas razões importantes para a dificuldade de amamentar percebida por tantas mulheres: a cultura do leite em pó, que persiste até hoje, nos fazendo duvidar da qualidade e da força do leite materno como suficiente para alimentar um bebê; e a facilidade com que alguns pediatras prescrevem o leite em pó, antes mesmo de surgir qualquer problema na mãe ou no bebê.

Há ainda um terceiro problema, ainda no terreno da medicina – ou, melhor dizendo, da má medicina. Veremos isso no próximo capítulo.

Aqui abaixo você pode ver exemplos das propagandas de leite em pó em congressos médicos, e o link para o artigo sobre o Curso Nestlé.

http://pediatriaintegral.com.br/a-promiscuidade-entre-industria-e-medicina-o-exemplo-da-nestle-e-da-pediatria-no-brasil/

11214356_876201102470949_4378222581599298480_n

11036028_876201092470950_3692765972578243377_o

11800142_876201085804284_2266169176866407184_n

Compartilhe !