Capítulo V – Mães e bebês: quem somos, e o que precisamos?

14.08.2013
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(O quinto e último capítulo da nossa saga sobre amamentação. Numa próxima publicação, um apêndice sobre benefícios e vantagens do leite materno para mães e bebês.)

 

Diante de tantos obstáculos – históricos, culturais, mercadológicos, médicos, familiares – a pergunta que fizemos ao abrir este libreto sobre amamentação parece se inverter. Em vez de “porque não é tão fácil amamentar?”, parece que devemos perguntar “como é possível amamentar diante de tantas dificuldades?”.

A biologia humana (e antes dela, a da vida vegetal e animal) é dirigida para a sobrevivência e a reprodução. Alimentar um filho com seu próprio leite é um instinto básico, muito profundamente gravado na alma da mulher – afinal, quando não éramos modernos, nenhum bebê sobrevivia a não ser amamentado. Mas em nossos tempos, a cultura – a palavra que sintetiza todos os fatores mencionados nos capítulos anteriores – pode superar mesmo os mandatos biológicos mais profundos. O “Crescei-vos e Multiplicai-vos” bíblico nada mais é do que a tradução em palavras dos instintos básicos da vida – sobreviver e reproduzir-se – na boca de Deus, representando a natureza. Em nossos tempos, outros mandatos – agora da cultura – ocupam estes espaços. Comprai-vos, diverti-vos, emagrecei-vos, trabalhai-vos obsessivamente, não dormi-vos, medicai-vos e assim por diante. E os mandatos biológicos como amamentar se “desconectam”, ficam esquecidos – perdemos mesmo as habilidades naturais que recebemos para exercitá-los.

Mesmo biologicamente, uma mulher não é igual a outra. Nenhum indivíduo é igual a outro. Todos temos habilidades e dificuldades inatas. Uns nascem com talento para jogar futebol, cantar ou escrever. Outros são um desastre. Uns são dos números, outros das ciências humanas. Uns tem olhos verdes, outros castanhos. Uns tímidos, outros extrovertidos.

Algumas mulheres nascem sabendo amamentar. Tem um bico do seio bacana, um bom fluxo, produção na medida pra o bebê, pele resistente que não fissura, não dói, sabem encaixar o bebê no seio, sabem intuitivamente a pega e o jeito, dormem bem, se concentram, não se cansam, bebem muita água, não se deprimem…

Outras: tem bico plano, invertido, dolorido, têm dificuldades para colocar o bebê no peito, se sentem desajeitadas para segurar o bebê, tem pouco fluxo inicial, “empedram” logo, tem apojadura dolorosa, fazem mastites, não bebem o suficiente porque tem pouca sede, são dispersivas, ansiosas, não conseguem dormir, ficam muito cansadas…

E os bebês? A mesma história: tem os que nascem sabendo mamar. “Encaixam” no seio de primeira, tem boa pega, boa sucção, são despertos e mamam com eficácia, não demoram demais nem de menos, dormem bem e não mais que o suficiente, são tranqüilos, ganham peso, não tem cólicas nem refluxo…

E os outros: não abrem bem a boca, não tem boa pega, sugam só o bico (e machucam o seio), dormem demais, dormem de menos, tem cólicas ou refluxos, mamam tempo demais, adormecem no seio antes da hora, são dispersos, são agitados demais, invertem dia e noite, choram o tempo todo, querem fazer o seio de chupeta…

Todas estas possibilidades, e muitas outras, estão presentes na potencialidade de cada binômio mãe-bebê. É impossível prever como vai se dar a relação fundamental de cuidado entre mãe e filha/filho. Só depois do nascimento isso começa a se delinear. O que é dado é um campo de possibilidades, onde mãe e filho vão se posicionar a cada momento.

Uma mãe com “talento” inato para amamentar e um bebê que nasceu para sugar não vão ter problema nenhum. A vida é boa. Outras mães com facilidade terão bebês difíceis, e bebês com dificuldades terão mães jeitosas. Nestes casos, muitas vezes precisarão de ajuda.

Finalmente, uma mãe com variados graus de dificuldades pode ter um bebê complicado. O cenário aí é explosivo. Essa mulher e seu filho vão certamente precisar de ajuda. E essa ajuda, como começamos a explicar no capitulo anterior, deve vir de forma muito especial: com apoio, com carinho, com cuidado, com empatia. O papel do pai (o “elétron”) é crucial. Assim como o dos avós, amigos, pediatra.

Mas uma situação mais difícil precisa de ajuda especializada. A boa notícia é que por aqui, no Brasil, temos o privilegio de contar com profissionais e instituições de primeira linha na área do apoio à amamentação. Um grupo cada vez maior de profissionais – quase sempre mulheres – professoras de cursos de gestação e cuidados do bebê, psicólogas, enfermeiras, fonoaudiólogas, pediatras – são capazes de intervir como consultoras de amamentação, e de forma muito prática, cuidadosa, presente, carinhosa, ajudar uma mulher a vencer as dificuldades e angústias e conseguir amamentar seu bebê em paz de espírito e saúde.

No Brasil ainda temos o privilégio de contar com uma rede de Bancos de Leite, instituições públicas que em 2012 fizeram mais que 2 milhões de atendimentos em todos os estados brasileiros. Os bancos recebem doações de leite humano, processam e distribuem para hospitais e UTIs infantis. E muito especialmente, atendem mulheres com dificuldades de amamentar e o fazem com ótima qualidade em geral. Um recurso incrível e um dos melhores serviços do SUS – do qual podemos todos nos orgulhar.

É preciso, antes de terminarmos esse texto, um parênteses de respeito às mulheres que não amamentam. Muitas não conseguem, por uma infinidade de motivos, dificuldades, acidentes de percurso, doenças. Isso não as torna incompetentes, muito pelo contrário – muitas vezes foram heróicas em seus esforços. Para elas e seus bebês, o leite em pó é um recurso necessário, e felizmente, tecnicamente bem desenvolvido nos dias de hoje. Uma minoria de mulheres não quer amamentar – também por diferentes motivos e questões. A nós, profissionais e amigos, cabe conversar, orientar e demonstrar que amamentar seria melhor para ela e para seu filho, mas jamais criminalizá-las. Ao final, nos cabe respeitar sua opção. Se não podem ou não querem oferecer leite materno, oferecerão amor – um alimento ainda mais indispensável. E seus bebês crescerão saudáveis e em paz.

Pra terminar: otimismo

O Brasil é uma das nações mais engajadas na prática da amamentação. Nossos índices são comparativamente muito bons: em 2008, mais de 51% e nossos bebês de 4 meses eram amamentados exclusivamente ao seio – contra apenas 35% em 1999. Isso significa que estamos conseguindo aumentar muito significativamente nossa proporção de mães que amamentam. Em países miseráveis da África e da Ásia, as taxas chegam a índices trágicos de menos de 10% (justamente onde as crianças mais precisam do leite materno); na Hungria e na Suécia, chega a mais de 60%; Canadá e Japão estão abaixo do Brasil, com cerca de 40%.

Nossa cultura de amamentação, apesar de todos os problemas, é um motivo de orgulho para nós. Aqui uma mulher não se envergonha de amamentar em público, nem é reprimida por isso (como acontece freqüentemente nos EUA). A grande maioria das mães quer amamentar, e suas famílias ficam orgulhosas e as apóiam. E a maioria de nossos profissionais de saúde e suas instituições, apesar das mazelas e dificuldades, apóia, defende e orienta a amamentação.

Acima de tudo: nossas mulheres conseguem vencer na grande maioria das vezes o desafio de amamentar. Apesar das cesáreas, dos berçários, dos maus profissionais; apesar das latinhas, mamadeiras e das indústrias; apesar dos palpiteiros bem intencionados, da vida profissional invasiva, da pressão de múltiplas tarefas. Nesses tempos de isolamento, hiper-demanda, distração e enormes angústias, elas vão em frente, com coragem e peito aberto – literalmente – e oferecem a seus filhos o melhor alimento que a natureza criou.

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