Como criar borboletas que voam

29.11.2015
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Vivemos numa sociedade onde risco e o medo estão presentes no nosso dia a dia. Medo vende, e muito. Falar dos riscos de doenças, acidentes, violência urbana, desastres e problemas financeiros, movimenta bilhões no mundo todo; o mercado e a publicidade nos pressionam diariamente com o medo. A medicina constrói seu conhecimento sobre a noção do risco, e isso é passado à população de forma errônea e muitas vezes manipulada, assustadora. No fim das contas, vivemos com medo e o risco está em nossas mentes o tempo todo e impomos restrições muitas vezes desnecessárias em nossas vidas. Não é à toa que uma das “doenças da modernidade” se chama “síndrome do pânico”.

Queremos saber tudo que pode, talvez, potencialmente, quem sabe um dia, ameaçar nossa saúde e integridade, e a de nossos filhos. O risco zero é um sonho de consumo. Deixamos todos eles para os praticantes de esportes radicais que vemos em dezenas de programas na TV. Para nós e nossos filhos, segurança absoluta. Mas a que custo?

Em nossos filhos, um arranhão nos deixa em pânico. Uma febre de 38? deve ser meningite, mesmo com ela comendo e correndo pra lá e pra cá. Tem que passar na hora, se dura dez minutos corro para a emergência (onde vamos correr mais riscos), ou peço logo um antibiótico.

Não tem jeito: nossas crianças estão no mundo, e vão se machucar, vão adoecer. E que bom que vão. A experiência da dor é absolutamente fundamental: enriquece, caleja e engrandece, nos torna pessoas melhores e mais resilientes, ajuda a enfrentar o medo, permite que a gente continue a persistir depois do tombo e do erro, promove em nós a empatia pela dor do outro.

Um pouquinho de experiência do sofrimento é essencial à vida. Um amigo meu dizia que não descansaria enquanto seus dois filhos não quebrassem o braço. Não é preciso exagerar, mas como já dizia o velho Nietsche, um pouco de dor faz muito bem à saúde e à alma.

No entanto, hoje tendemos a superproteger nosso filhos. Bolhas de todo tipo se interpõe à experiência da criança com o mundo. A superproteção impede que as crianças tenham contato com as frustrações, as dores, os arranhões e as dificuldades. E que portanto desenvolvam mecanismos para lidar com elas. Mas a vida certamente vai trazer tudo isso para elas – alguém duvida?

Os americanos, radicais no assunto, desenvolveram uma expressão para esse tipo de criação: helicopterparenting – pais que ficam rondando, “sobrevoando” em torno da criança, impedindo que seja exposta a qualquer sofrimento – inclusive os necessários, como uma consequência por um mau comportamento, ou uma nota baixa por não ter prestado atenção na aula.

Essa “idolatria”, essa concretização da fantasia de uma infância idealizada, sem arranhões, tem muitas origens – e como dissemos, a pressão do mercado criando a cultura do medo é um fator muito importante. Mas creio que boa parte dessa obsessão vem da falta de intimidade que a modernidade impõe entre pais e filhos. Convivemos pouco, e temos tantos objetos, telas, distrações e entretenimentos se interpondo entre pais e filhos que a intimidade se esvai. A intimidade nos dá segurança para o cuidar. É nela que podemos suportar e consolar o sofrimento do outro, mesmo que ele seja uma filha. Sem intimidade, fica difícil acolher a dor em silêncio ou com um simples “vai passar” com a voz transmitindo serenidade e segurança; fica difícil também impor limites, dizer não, suportar o choro da contrariedade – tão necessário à formação do caráter de uma criança.

Nessa ausência de intimidade, muitas vezes, a criança deixa de ser um membro da família: é entronizada e passa a reinar sobre ela. Já vi crianças de dois anos definindo os programas, as compras, o cardápio das suas famílias. Se ela chora ao desligar a TV, cancelamos o passeio no parque; sair com ela chorando e ver que depois de dois minutos ela está se divertindo muito mais que em casa, correndo e sorrindo, não se pode tentar. Se ela não gosta de legumes, damos o miojo. Esperar que a fome ajude a criança a quebrar a barreira e aceitar o alimento – nem pensar. Se vai mal na escola, a culpa agora é da escola, vamos lá reclamar.. Ganha cada vez mais presentes, não pode ser frustrada – quando tudo que precisaria é presença.

Uma bela parábola me vem à mente quando penso nessa tendência “moderna”:
Um dia, um homem notou uma pequena abertura que apareceu em um casulo de lagarta. Sentou-se e passou a observar a borboleta que, por várias horas, se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco. Em certo momento, ela pareceu parar de progredir. Se movia, mas não conseguia mais se projetar para fora do casulo.

Para ajudar a borboleta, o homem cortou o restante do casulo com uma tesoura. A borboleta então saiu facilmente. No entanto, seu corpo estava murcho, era pequeno e tinha as asas amassadas, atrofiadas. O homem esperou que as asas dela se abrissem – mas nada aconteceu. A borboleta nunca foi capaz de voar: rastejava, com um corpo murcho e asas encolhidas, até morrer”.

O casulo apertado e o esforço necessário para a borboleta passar através de sua pequena abertura são importantes para abrir as vias circulatórias das asas, fortalecendo-as e preparando-as para sua função: voar. Facilitar processos de aprendizagem, removendo dele as dificuldades, e as famosas “dores do crescimento”; proteger excessivamente, remover todos os riscos e impedir as frustrações, pode impedir justamente o que é mais essencial na aprendizagem: o fortalecimento das asas de nossos filhos.

Isso se aplica também a questão do brincar – hoje em dia submetido aos mesmos processos de superproteção.

Brincar faz bem; a arte de brincar, na criança, se transforma na arte de viver, no adulto; brincar tem riscos, viver também. Deixo vocês com esse post do Blog Playground da Inovação, da Fernanda Fúria, que coloca o paradoxo da vida moderna: apesar de playgrounds muito protegidos, as crianças se acidentam mais pela distração dos cuidadores (com seus smartphones, é claro…) e pela escassez da experiência do brincar, que reduz seu preparo físico e sua habilidade para o livre brincar.

Fernanda mostra os “benefícios do risco” e conta como em vários países estão sendo oferecidos às crianças playgrounds naturais (veja abaixo fotos do “The Land”, no Reino Unido), onde riscos existem de forma controlada, trazendo às crianças a necessária experiência do medo e da sua superação, a aquisição de habilidades e de independência, e sobretudo a extraordinária e fundamental experiência da aventura.

Confrontando medos na infância, nos tornamos adultos menos ansiosos, mais preparados para a vida. Afinal, o que é a vida, senão uma grande aventura?

http://www.playground-inovacao.com.br/beneficios-do-brincar-arriscado-porque-se-arriscar-faz-bem/

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