Cordão Umbilical: coletar ou não?

20.02.2014
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Uma pergunta muito freqüente para o pediatra no pré-natal: devemos ou não congelar o cordão umbilical do nosso bebê? As células-tronco do cordão serão úteis para ele no futuro? Podem realmente vir a ser utilizadas?

Não é uma resposta fácil. Sabemos que hoje em dias as aplicações são muito limitadas, que o melhor seria o envio dos cordões para bancos públicos, mas não se pode prever o futuro.

Pela primeira vez encontro um artigo com uma posição clara sobre o tema. A opinião de Patrícia Pranke, Professora da UFRGS e pesquisadora do Instituto de Pesquisa com Células-Tronco, é muito impactante. Reproduzo aqui a maior parte do artigo, levemente adaptado para melhor compreensão. O link com a íntegra segue abaixo.

Com o progresso tecnológico, é possível que as utilizações potenciais aumentem. Mas uma opinião tão definitiva de uma especialista na área é muito esclarecedora e deve ser levada em conta neste debate. E a opinião é claramente desfavorável à coleta.

O ideal seria certamente a doação para bancos públicos. O Hospital Albert Einstein em SP e o INCA no Rio fazem coleta. No Rio o Inca presta o serviço apenas em algumas maternidades públicas. Veja aqui:

http://www1.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=2469

O artigo na íntegra:

http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2013/01/06/artigo-o-terrorismo-do-cordao-umbilical/

 

O terrorismo do cordão umbilical

“Aproveite a única chance de congelar o sangue de cordão de seu filho, ele pode ter uma doença no futuro e você irá se arrepender se não o fizer”. “Faça um seguro de vida para seu filho e congele o seu sangue de cordão”. Como uma mãe com oito meses de gestação ouve essas afirmações? Diversos pais impressionam-se frente ao terrorismo imposto por essas propagandas enganosas.Mas esses pais e mães também têm o direito de receber informações verdadeiras para decidir ou não por tal procedimento. Obviamente que, se dedico meus estudos às células-tronco, é porque acredito que elas são uma possibilidade de cura de muitas doenças. Porém, precisamos ser cautelosamente otimistas e falar sempre a verdade.

As células-tronco do sangue de cordão são boas para substituir a medula óssea em doenças hematológicas…. Ou seja, para curar leucemias, são ótimas. …Recentemente, lemos sobre a esperança de uma mãe que congelou o sangue de cordão de seu filho na expectativa de usar as células-tronco para curar sua própria leucemia. O ideal é que tenham 100% de compatibilidade. Em raros casos, até se pode aceitar 70%. Mas não 50%, o que ocorre entre pais e filhos. Logo, células de um filho não seriam usadas por hematologistas em sua mãe.

É verdade que a chance de encontrarmos um doador fora da família é de 1 para 100 mil. Porém, por que não se fala que só no Brasil há praticamente 3 milhões de doadores de células-tronco de medula óssea ou cordão umbilical? Ou seja, cada um de nós tem cerca de 30 doadores compatíveis se precisarmos de um transplante em caso de leucemia ou outra doença hematológica….

….em caso de necessidade clínica, como, por exemplo, de uma gestante já ter um filho com leucemia, o sangue de cordão umbilical de um filho pode ser congelado de forma totalmente gratuita, pelo sistema público de saúde? Basta o ginecologista contatar os órgãos públicos que a coleta é facilmente realizada.

Por que não se esclarece que mais de 95% dos casos com indicação clínica de transplante de células do sangue de cordão umbilical ou medula óssea são leucemias e doenças genéticas, para as quais não se deve usar o sangue de cordão da própria criança, mas sim doado por outro, desde que compatível, visto que o sangue da criança já deve ter a doença?Por isso, diversos países da Europa proíbem o congelamento do sangue de cordão umbilical para uso autólogo. Bancos de cordão são excelentes para uso alogênico, ou seja, doado por outra pessoa e congelado nos chamados bancos para uso público. Mas são ineficientes para uso autólogo, que congela o sangue da própria pessoa…

As células-tronco do sangue de cordão praticamente só são usadas para doenças hematológicas como as leucemias… não servem para outras doenças, pois não têm as chamadas células-tronco mesenquimais, só as hematopoiéticas. …Não adianta congelar na esperança de usar para outras doenças, como doenças cardíacas, diabetes, neurológicas.

E não devemos esquecer que nós somos fábricas de células-tronco. Então, se precisarmos delas aos 60 anos, em lugar de usarmos células congeladas há anos, é muito melhor usarmos células novas extraídas da nossa própria medula óssea ou da gordura, para esses casos não hematológicos ou genéticos.

Por que, então, continua-se omitindo a verdade para esses pais, que têm o direito de conhecê-la? A explicação é muito simples: a verdade iria fazer com que a busca pelo serviço de congelamento de sangue de cordão umbilical para uso próprio (autólogo) se reduzisse a menos de 10%. Essa é também a opinião de inúmeros hematologistas sérios, como Cármino de Souza, presidente da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, que compartilhou comigo essa preocupação: “esses bancos não passam de ‘vendas de ilusões’ pois o impacto à saúde individual ou coletiva é praticamente zero. Infelizmente, há uma bem organizada ‘indústria’ de pressão sobre pais e avós, em um momento de alegria onde é muito fácil obter alguma vantagem”.

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