Dia das Mães, 2014: participar da vida de nossos filhos e da sociedade

17.06.2014
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Hoje é dia especial, e merece um carinho especial. O excesso de trabalho no consultório tem me impedido de escrever como gostaria, mas estamos tratando de corrigir o problema.

Enquanto isso, nossa homenagem ao Dia das Mães em forma de dois vídeos que se complementam.

Um brinca, de uma forma muito americana (com jeitão business), com o recrutamento para um emprego difícil e mal remunerado. A arrogância se transforma em humor, e o humor em emoção. Veja que emprego incrível está em jogo.

O outro, mais simples, e para mim o mais significativo, confronta o pessimismo e a postura de desistência de pais e mães diante do futuro, com os sonhos de seus filhos, que se realizam no futuro. Creio que é uma boa reflexão para o Dia das Mães.

Ele revela o que em muitos de nós é (ao menos parcialmente) inconsciente: somos responsáveis não só pelos nossos filhos individualmente, mas pelo futuro coletivo de sua geração.

Sabemos – mais ou menos na superfície de nossas mentes – da crise civilizatória que vem por aí. Ela se anuncia nas catástrofes climáticas, nas previsões dos cientistas, em artigos na imprensa, em filmes de ficção. Ela dá seus sinais na forma como nossos políticos fazem pouco da sociedade, roubando e achincalhando o país “como se não houvesse amanhã” (essa expressão tão significativa). Ela se manifesta no presente, no clima de intolerância e violência social que andamos vivendo no Rio e no Brasil, na descrença e no cinismo que parece eclodir do mundo todo.

Só nas últimas semanas temos sido assaltados por manifestações tão fortemente opostas ao que se pode chamar de civilidade: linchamentos no Guarujá, menino assassinado pelos pais no Sul, menina apedrejada em Foz do Iguaçu, mais notícias de corrupção nas obras da Copa e na Petrobrás, as cenas de horror na Ucrânia, o racismo e o anti-semitismo crescentes na Europa e por aqui, o fundamentalismo religioso e o fanatismo impedindo avanços educativos e sociais no Brasil e nos EUA, ou seqüestrando centenas de meninas na Nigéria.

O mal estar que comentamos na roda de amigos e no Facebook tem a ver com uma certa perda de esperança. Filmes de ficção que retratam o fim do mundo eminente mostram como as relações humanas se deterioram e a violência eclode. Precisamos de esperança no futuro, da sensação de continuidade, da perspectiva de um mundo onde nossos filhos e netos viverão, se possível mais felizes que nós, para seguirmos em frente. O futuro comum nos permite um presente comum, onde as questões coletivas, como a empatia, a igualdade, o respeito ao outro, a civilidade, a tolerância e a aceitação da diferença sejam a norma. E a recíproca é plenamente verdadeira.

Estamos diante de crises inexoráveis e claramente anunciadas, sobretudo a crise ambiental e suas possíveis conseqüências nefastas para muitas sociedades. Uma sociedade perversamente desigual e brutalmente elitista como a brasileira, vai sofrer mais do que outras.

E aí, como ficamos? Criando filhos com todo carinho e amor, investindo nas mais diversas atividades e nas melhores escolas, para que antes da maturidade eles enfrentem um mundo em decomposição? Há uma contradição inerente aqui.

O paradoxo maior é: investimos todas as nossas fichas no cuidado individual, e nenhuma no coletivo. Aprendemos a agir assim justamente porque nossa sociedade é tão desigual, o fosso da diferença tão assustador, que preferimos fazer qualquer coisa para nos afastar do abismo. E esquecemos que a dimensão do coletivo é tão ou mais essencial para a qualidade de vida de nossos filhos do que as aulas de musicalização ou a creche bilíngüe.

Mas como fazemos para atuar no coletivo, para transformar o futuro? Vivemos num momento de ameaças terríveis do futuro, por um lado, e de um presente onde nossa forma mais tradicional de ação coletiva – a política tradicional, a democracia representativa – parece completamente esgotada. Não sei como se sentem brasileiros de outros estados, mas a eleição deste ano no Rio parece condensar de forma emblemática a tragédia política que vivemos. Os cinco candidatos principais, todos eles com fichas policiais, mandatos prévios desastrosos, “malfeitos” conhecidos, exploradores da fé alheia ou cercados de mafiosos por todos os lados.

Então, por onde ir? O voto é indispensável, mas sozinho não vale nada. É preciso votar em bons políticos, mas isso em si não basta. Ao contrário, dá legitimidade e invulnerabilidade aos bandidos que se elegem. Precisamos atuar justamente no período entre uma eleição e outra, quando em geral voltamos as costas para os governantes e legisladores e deixamos que eles façam a festa.

A sociedade brasileira está – de forma inovadora, inclusive, em várias iniciativas – começando a encontrar fórmulas para essa ação. Surgem articulações que congregam organizações da sociedade civil, mídia, empresas, indivíduos que se juntam e criam mecanismos para cobrar dos governos mais transparência, prestação de contas, transformação de promessas eleitorais em programas de governo – programas que devem ser expressos em metas e alocações orçamentárias, e acompanhados por indicadores. Programas que se não cumpridos podem levar a remoção desses governantes.

Iniciativas que exigem que recursos públicos sejam usados não para atender uma agenda de interesses privada – a de prefeitos, especuladores, vereadores, milicianos e alguns empresários, como em minha cidade – mas que sejam utilizados para o interesse da sociedade como um todo, para melhorar a qualidade de vida das cidades, gerar mais mobilidade, saúde, educação, acessibilidade, recreação, cultura e natureza para todos, e mais para quem mais precisa. E sobretudo, que gerem cidades sustentáveis, preparadas para a crise ambiental, cidades onde nossos filhos poderão viver melhor, mais protegidos e mais felizes.

Neste Dia das Mães, sugiro que nós, pais e mães, façamos essa reflexão. Criar filhos melhores para o mundo – com nosso investimento em educação, carinho, limites adequados, ensinando empatia, respeito ao próximo e ao meio ambiente. E criar um mundo melhor para nossos filhos – participando ativamente, e não apenas criticando os horrores retratados as manchetes dos jornais.

Não faltam possibilidades para atuar no coletivo. Existem milhares de idéias, iniciativas, organizações e mesmo ações individuais e atitudes que abrem essas possibilidades. O Facebook mesmo é riquíssimo em exemplos de iniciativas do bem.

A forma que pessoalmente acredito como mais eficaz é a democracia participativa, a chamada governança compartilhada. Aqui seguem alguns exemplos que você pode conhecer e ajudar, se desejar:
- o Meu Rio, que acaba de ganhar um premio do Google para disseminar seu modelo de democracia participativa em 20 outras cidades do pais: https://www.facebook.com/meurio?fref=ts
- a Amarribo, uma iniciativa contra a corrupção que fez escola: http://www.amarribo.org.br/
- A Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis – https://www.facebook.com/RededeCidades?fref=ts, iniciativa que congrega programas em muitas cidades do Brasil e também no exterior;
- O Centro de Promoção da Saúde (www.cedaps.org.br), uma ONG que tenho orgulho de ter co-criado e participado durante muitos anos, e que trabalha com mais de 150 comunidades populares, estimulando a participação, a equidade e a justiça social.
- E muitas outras, de acordo com seus interesses e possibilidades.

Existem, portanto, muitas maneiras de transformar o futuro. Uma delas é, como disse Gandhi, “sendo a mudança que queremos ver no mundo” – sendo um exemplo para nossos filhos. A outra, é passando a tomar parte nas decisões que moldam o nosso presente e o futuro de nossos filhos. Participando da vida coletiva. Se deixarmos a desilusão e a desesperança tomar conta de nós, vamos entregar cada vez mais o nosso futuro a quem quiser fazer mau uso dele. Nos apropriando de nossas destino e de sua dimensão coletiva, podemos dar mais sentido a nossas vidas e às de nossos filhos.

Feliz Dia das Mães a todas vocês, que contribuem para um mundo melhor, para um futuro possível, para todos nós – cada uma a sua maneira e ao seu ritmo.

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