Educar sem Violência

29.08.2014
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Educar sem Violência

Há algum tempo conheci a Ligia Moreiras Sena, a blogueira mãe/doutora que escreve o famoso Cientista Que Virou Mãe. Foi um encontro de forte afinidade nas questões em que ambos trabalhamos. Deste diálogo surgiu um convite para escrever o prefácio do livro que ela e Andreia Mortensen escreveram, Educar sem Violência. Fiquei muito tocado com o livro, e mais ainda com o convite – e daí saiu um texto que pode se dizer “emocionado”.

Segue aqui o prefácio pra quem tem paciência de ler textos longos na internet. Logo abaixo, o link para comprar o livro, que como escrevi justamente, considero de importância histórica. Uma pequena jóia que todos os pais e mães, presentes e futuros, deveriam ler.

E neste sábado, Ligia, que mora em Floripa, autografa o livro na Livraria Cultura do Fashion Mall, das 16:00 às 17:30.

“Há livros de histórias, e livros de não ficção. Livros de auto-ajuda ou de humor. Livros que explicam a ciência, livros que versam sobre o amor.

São poucos os livros que integram amor e ciência. Onde carinho e valores se encontram com as circunvoluções do córtex cerebral. Livros que nos falam com a mesma intimidade de fases do desenvolvimento e solidariedade, de estudos científicos e afeto, de estatísticas e empatia. Estes são livros preciosos. Este é um deles.

Há muitos livros escritos para “ensinar” pais e mães a educarem filhos. A maior parte deles fala sobre desenvolvimento, hábitos, traz dicas para os primeiros cuidados, erros a evitar, alimentação, doenças, sono, higiene. A maioria deles tem fórmulas prontas, e a família que se encaixe nelas.

O livro que você está prestes a começar traz ao mesmo tempo pesquisas e depoimentos; oferece dicas mas discute, busca entender nossos erros e acertos. Promove um diálogo do nosso passado com o nosso futuro, o que permite a criação de um presente melhor. Transcende o contexto da família para dentro e para fora: por um lado nos ajuda a compreender melhor o desenvolvimento de nossos filhos em bases neuro-científicas; e por outro, insere a família na coletividade, na sociedade, nos tempos em que vivemos. Além de tudo isso, este livro foi escrito como uma conversa aberta como leitor; também por isso, ele é precioso.

Minha preocupação, como pediatra, palestrante ou escritor, tem sido atualizar o debate e a reflexão sobre paternidade e maternidade nos dias de hoje. Os tempos mudaram, mas nossas famílias não. Continuam a se preocupar se a água deve ser filtrada ou fervida, enquanto servem venenos a seus filhos; se apavoram se as crianças andam descalças no chão frio, enquanto lá fora o clima esquenta e a crise ambiental ameaça o planeta.

Poucos temas poderiam ser mais relevantes para a modernidade do que a reflexão sobre a não violência e a disciplina positiva na educação. Perdidos numa atualidade em que convivem cada vez menos com seus filhos e filhas; em que são quase instados a substituir presença por presentes; em que são submetidos à mídia e ao mercado, que estimulam o preconceito e a alienação, que elevam crianças ao pedestal de reis e rainhas do lar; e em que perderam suas próprias referências familiares e de identidade, pais e mães enfrentam enormes dificuldades e angústias para educar seus filhos. É curioso que neste contexto escreva-se tanto sobre “como dar limites” e tão pouco sobre não-violência e amor.

Ligia e Andréia, ambas militantes da humanização do parto e do cuidado integral da criança e de seus direitos, defensoras da autonomia da mulher, decidiram escrever sobre a não-violência na criação de filhos e filhas. Mas na verdade nos brindam com um livro muito mais amplo – um livro sobre educação amorosa. Como colocam muito bem as autoras, “se pode ensinar a uma geração de pais – que foi criada em meio a um discurso coletivo de aceitação do castigo físico – que existem formas mais respeitosas, amorosas, saudáveis e cientificamente mais eficazes de educar nossos filhos”.

Equilibrando neurociência, psicologia e ciências sociais por um lado, com afeto, maternidade e bom senso por outro, a “cientista que virou mãe” e sua parceira do movimento “Crescer sem Violência”, nos oferecem um diálogo que transcende fronteiras – literalmente, pois foi escrito em parceria por duas autoras que não haviam se encontrado fisicamente – e discutem a essência do ato educativo e de suas conseqüências.

Ilustrando o texto com depoimentos muitas vezes pungentes. desarmam com argumentos ora científicos, ora amorosos, as muitas formas explicitas ou sutis de violência no seio da família. Oferecem alternativas, dicas, lembretes para cada situação onde a violência pode eclodir; e nos lembram das conseqüências de nossos atos na psique de nosso filhos, na projeção dos adultos que serão mais tarde, nas suas concepções morais, éticas, nas suas futuras relações familiares e sociais – e na sua postura como cidadãos.

Vejo uma importância histórica nesta publicação – e me explico. Infelizmente, a atual geração de crianças vive sob uma ameaça civilizatória inexorável. Já é certo que nosso filhos sofrerão as conseqüências da crise ambiental na sua pele.

O consenso dos cientistas aponta as duas grandes saídas para a mitigação da crise, para atenuarmos seu impacto: a redução da desigualdade e a justiça social, por um lado; e o consumo consciente e o comportamento sustentável por outro.

Como pais e responsáveis pelo seu futuro, precisamos mudar nossas atitudes e mostrar a nossos filhos comportamentos sustentáveis, para que nos tenham como exemplo e modelo. É nossa obrigação como pais e mães. Mais do que isso, precisamos oferecer a eles a vivência da natureza. Para defender algo, é preciso amar. Para amar algo, é preciso conhecer, vivenciar, experimentar. Nossos filhos terão que defender a natureza e cuidar dela. É só através da vivência, de uma manhã na cachoeira, de um passeio na floresta ou um dia na praia que eles aprenderão a amar essas maravilhas, e por isso defendê-las quando for necessário – e será.

Do mesmo modo, se queremos a redução da desigualdade, precisamos de crianças que vivenciem o amor e a não-violência Se no futuro teremos que cuidar melhor uns dos outros, que defender a justiça social, é preciso que ensinemos a nossos filhos, agora, formas de relação mais amorosas e não violentas. É preciso que saibam respeitar o outro, negociar com cuidado, chegar até ele com empatia – para trazê-lo, com argumentos racionais e afeto, a um lugar de consenso.

Precisamos de cidadãos para o mundo futuro que saibam cuidar do outro e cuidar do planeta. Só assim, como na palavra das autoras, construiremos “um mundo menos violento e mais amoroso” – provavelmente o único mundo possível.

Estamos diante de uma obra, de uma ação no mundo, gerada pelo encontro entre duas mulheres em sua coerência. O que elas propõe neste texto, é como vivem, como desejam ver o mundo, e como atuam nele, pela sua militância. Do encontro entre crença, ação e ideal, nasce um livro. E porque escrevemos um livro? Responde o escritor e rabino Edward Feinstein:

‘Você escreve um livro, porque em algum lugar de sua alma você acredita que a sabedoria que ele contém vai fazer alguma diferença; vai mudar uma vida, pode até mesmo ajudar a transformar uma cultura. Você escreve um livro para poupar alguém da escravidão a falsas idéias, da dor de tornar sua vida uma busca inútil e vazia. Você escreve um livro para atravessar tempo e espaço, e tocar outras vidas. Você escreve um livro como um ato de amor. E isso traz significado à sua vida”.

A única maneira de suportar a condição humana, com todas as suas inevitáveis crises, como ensinou Viktor Frankl, é descobrir e afirmar a finalidade para a qual vivemos. Se a vida tem um propósito, se adquire um sentido, o sofrimento é mais suportável, os dias nascem mais intensos, a alegria brota mais facilmente.

Sabemos que sentido e propósito só se manifestam na dimensão do coletivo. Uma vida significativa se constrói não no consumo, no ter, mas na relação com o outro, no afeto e no convívio, nas nossas questões comuns. A educação amorosa é um grande passo para darmos mais sentido a nossas vidas: tanto pelo seu valor intrínseco para nossos filhos como indivíduos e para o convívio familiar, quanto pelo que ela pode contribuir para a sustentabilidade planetária e para a justiça social – as grandes questões da nossa geração.

Este pequeno e precioso livro vai contribuir para não apenas fazer do leitor um pai ou uma mãe melhores, um educador amoroso, mas também alguém que, com pequenos e preciosos gestos, colabora na construção do mundo que precisamos – nós e nossos filhos.

http://cientistaqueviroumae.iluria.com/pd-106960-educar-sem-violencia-criando-filhos-sem-palmadas.html?ct&p=1&s=1

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