Insustagen…

29.11.2015
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Ontem à noite fui à farmácia. Na minha frente, uma mulher elegante, obviamente de classe média alta, nos seus 40 anos comprava 4 latas de SustagenKids. Eu estava de capacete de ciclismo, suado e meio vermelho (do exercício e da indignação), e creio que ela levou um susto quando a chamei baixinho. Disse logo que era pediatra. “Você esta comprando isso para seu filho, que come mal?”

“Sim, por que?”

“Porque essa é a pior coisa que você pode fazer por ele. Veja só aqui no rótulo, ingredientes: o primeiro é açúcar. Isso significa que antes de leite, de vitaminas, ou qualquer outra coisa, o que essa lata mais contém é açúcar. Agora veja as informações nutricionais: de uma porção de 30g, 27g são de carboidratos.. Isso significa simplesmente que quase 90% da lata é de… açúcares. Será que isso vai ajudar seu filho a comer melhor ou ficar mais bem nutrido”?

Ela já tinha estendido ao caixa o dinheiro para pagar as famigeradas latas. Ficou olhando para o vazio, se virou pra mim e disse: “e foi meu pediatra quem me receitou”.

Não creio que o pediatra tenha feito isso por má intenção. É claro que ele não quis prejudicar a saúde da criança. Ele pode ser um ótimo profissional no diagnóstico e tratamento de doenças. O problema é outro: a relação acrítica da medicina com a indústria.
Recebemos simpatias e amostras, brindes e agrados de fabricantes de leites e remédios. Essa antiga técnica de marketing gera um “endividamento” em quem recebe. Que começa pela confiança. Tenho certeza de que o representante do Sustagen falou nas muitas vitaminas que o produto contém (todas artificiais aliás – e os poivitamínicos já foram demonstrado como inúteis por vários estudos) e sua utilidade para garantir a “boa nutrição” das crianças que não comem.

Então: não se trata de um mau profissional ou de um monstro, como vemos muitas vezes as postagens aqui no FB clamarem. Temos uma grande massa de médicos que não tem tempo ou prioridade para examinar essas questões – ou de criticar a produção industrial voltada para a infância. É uma pena. Considero isso um erro. Precisamos prestar atenção a esta questão, pois estamos contribuindo para o aumento exponencial da obesidade e das doenças crônicas no Brasil. Precisamos entender que se uma criança não come bem ela pode ser educada, a família deve ser apoiada e orientada para ajudar seus filhos a criarem bons hábitos, em vez de empurrarmos um veneno que terá o efeito oposto: além de ser tóxico, vai afastar ainda mais a criança da comida natural, pois o brócolis não pode competir com 90% de açúcar.

(Obrigado ao Infancia Livre do Consumismo e Comidinhas do Bê (Mariana Froes) pela foto e inspiração)

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