Meningites e Vacinas

29.11.2015
, , , , , , , , , , ,  - 

(Advertência: esta publicação, assim como todas as desta página, expressa uma opinião pessoal, formada através de leituras, experiência e reflexão. Mas ela não deve substituir – como todas as outras – um aconselhamento médico pessoal. Ninguém deve receber um diagnóstico ou recomendação de tratamento através da internet. Isso deve ser feito sempre por um médico em interação pessoal, que pode fornecer um diagnóstico apropriado e, em seguida, discutir as opções de tratamento. Todas as decisões sobre vacinas devem ser feitas também após discussão com seu médico.)

Muita gente vem pedindo uma matéria sobre as novas vacinas para Meningite: ACWY e B (Bexsero). A resposta infelizmente não é simples, e o texto é longo. Vamos primeiro tentar entender o que é meningite, suas várias causas, e as vacinas disponíveis. Num segundo post, em seguida, vamos discutir sobre como funciona o mundo dos medicamentos e das vacinas, numa reflexão mais crítica.

Antes de mais nada: sou pediatra, afiliado à Sociedade Brasileira de Pediatria e ao Ministério da Saúde, e totalmente a favor da vacinação. Vacinas são uma grande invenção da medicina, salvam muitas vidas e devem ser usadas sempre que forem indicadas com responsabilidade.

Meningite é uma inflamação das membranas que envolvem o sistema nervoso (as meninges), e pode ser causada por vários tipos de microrganismos. As mais comuns são causadas por vírus (o que significa que o caso de meningite do colega de escola de seu filho tem maior probabilidade de ser viral), felizmente pouco graves em geral. Já as meningites por bactérias são doenças graves e muitas vezes letais. As causadas pelas bactérias Pneumococo e Hemofilus estão diminuindo devido à vacinação já bem estabelecida. A principal bactéria causadora da doença é a Neisseriameningitidis, ou meningococo, assim chamada por ter sido descoberta num caso de meningite, que é sua principal manifestação no ser humano (já penumococos e hemofilus são frequentes causas de otite, pneumonia e sinusite).

Então, uma meningite não é sempre causada pelo meningococo. Das bacterianas, ela é a causa mais comum. Em alguns casos, pode ter uma evolução muito rápida e levar à morte ou a sequelas, mesmo quando tratada adequadamente. Existem vários subtipos dessa bactéria, denominados por letras: A, B, C, W e Y são os principais. A mais prevalente no Brasil é a meningite C, com mais de 75%, e depois a B, com cerca de 18% dos casos. Os casos de meningite C vem diminuindo, em função da bem sucedida vacinação em massa pelo SUS. A meningite B está crescendo proporcionalmente, em função da redução da C – mas não encontrei registros sobre um aumento do número absoluto de casos.

Há uma longa explicação de porque se deve adotar uma certa vacina, que passa por racionalidades clínicas, epidemiológicas e econômicas. Vou evitar essa discussão e dizer que se há uma nova vacina eficaz e segura contra a meningite B, ela deveria ser adotada.

A vacina de meningite B foi desenvolvida com uma tecnologia inovadora e sofisticada. Entretanto, é um produto ainda muito recente. Algumas vacinas podem ter efeitos colaterais sérios e já foram retiradas do mercado por isso. Praticamente todos os estudos desenvolvidos até agora foram feitos pelo próprio fabricante, que tem óbvios conflitos de interesse em jogo. Muitos dos problemas com produtos farmacêuticos só são detectados na fase que se chama “post-marketing“ – após o inicio da comercialização. Nesse momento, as autoridades sanitárias podem fazer estudos isentos que mostram se o produto é realmente efetivo, quais são os efeitos colaterais e com que frequência e gravidade surgem, se seus benefícios suplantam os riscos, se vale a pena disseminar o seu uso, e que custo essa decisão representaria. Os riscos de problemas sérios surgirem são pequenos, e você pode optar por vacinar seu filho imediatamente. Mas talvez seja prudente esperar um pouco em vez de correr para a fila da clinica. Veja que de forma nenhuma estamos contraindicando a vacina, ao contrário: repito que, em sendo segura e efetiva a longo prazo, deveria ser uma vacina acessível a todos.

A vacina conjugada quadrivalente “ACWY”, contra quatro subtipos da bactéria, já vem sendo usada há bastante tempo para crianças maiores. Recentemente foi liberada para crianças a partir de dois anos, e agora para bebês no 1o ano de vida. O CDC e outros órgãos a recomendam para adolescentes; para crianças pequenas, apenas naquelas com problemas de saúde específicos ou situações especiais (viagens – para a África por exemplo – e surtos).

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda o uso dessa vacina para o reforço da vacona de meningite, após um ano de idade (12 ou 15 meses) e em doses subsequentes de 5 em 5 anos, embora os casos de doença pelos tipos A, W e Y em nosso país sejam mais raros.

A vacina de Meningite B não está disponível no SUS, e é caríssima. É vendida pela indústria por cerca de 340 reais (de acordo com o site do Dr. Dráuzio Varella) para clínicas privadas, que a aplicam por cerca de 600 a 700 reais por dose. Para um bebê, seriam necessárias 4 doses entre 3 e 15 meses, o que significa um custo aproximado de 2.500 reais. Não é uma decisão fácil para a grande maioria das famílias desse pais. Já a vacina ACWY custa em média 150 reais uma dose.

No momento a única vacina disponível nos postos de saúde do SUS é a contra a Meningite C. Usando essa vacina você estará agindo corretamente e protegendo bem seu filho. Quem pode acrescentar proteção usando as outras vacinas, de acordo com o calendário da SBP, ótimo. Mas não se culpe se sua família não tem condições.

Neste contexto, me entristece ver o tipo de estratégia de marketing usada pela indústria. As fotos anexas mostram folhetos nas quais fabricantes procuram estimular as famílias a vacinar os adolescentes associando o beijo e o compartilhamento de garrafas de água ao risco de adoecer. Não deveria ser necessário semear este tipo de medo, nem associar atitudes naturais da vida e do afeto a doenças.

Uma outra estratégia muito usada pela indústria: convencer médicos mostrando
as maravilhas de seus produtos, evitando mencionar problemas e colocando publicações redigidas por seus funcionários em nome de especialistas reconhecidos. Essa é uma prática comum nos EUA. Em um congresso recente no Brasil, assisti a duas palestras sobre meningite B e a nova vacina, uma delas abertamente patrocinada pelo fabricante, a outra não. Em ambas foram usadas o mesmo conjunto de slides, muito provavelmente fornecido por quem…?

Num próximo post vamos discutir um pouco melhor a questão de como a ciência não é totalmente isenta na questão de remédios e vacinas, e como nossa sociedade, muito medicalizada, adota uma espécie de consumismo farmacêutico.

Pra terminar, um pedido: tome cuidado com a desinformação nos dois lados da equação. Exemplos de maus subsídios para decidir:

- meu filho é saudável, come legumes e não vai à creche, não precisa de vacinas – o risco pode ser pequeno, mas continua existindo;

- acusações de que algumas vacinas de causar autismo, esclerose múltipla e outros mitos, já derrubados por estudos sérios e isentos;

- boatos que anunciam surtos de meningite no seu bairro ou na escola de seu filho, que nos chegam pelo Facebook ou pelo grupo de mães no Whatsapp, em geral gritando o nome de uma vacina ou de uma clínica para onde você deve correr imediatamente.

(aliás, por favor verifique muito bem antes de disseminar notícias deste tipo – você estará ajudando suas amigas, seus filhos e a sociedade)

Não se deve tomar a decisão sobre uma vacina ou um tratamento (especialmente novos) por conta própria. Informe-se bem, e converse sempre com um ou mais profissionais de saúde, em especial o seu pediatra.

Compartilhe !