Não é fácil criar filhos

29.11.2015
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No dia 17 de maio de 2015 tivemos o lançamento do livro de Stephanie, que tive a honra de prefaciar.

Reproduzo o texto aqui com pequenas modificações – uma reflexão sobre o bom senso na criação dos filhos. Porque muitos o perderam, e a possibilidade de reencontrá-lo em figuras de referência.

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Não é fácil criar filhos. É uma tarefa complexa, árdua, que exige dedicação plena, decisões serenas mas muitas vezes rápidas. Exige a capacidade de estar presente, de ouvir, de dar atenção, atitudes tão raras na vida moderna. Exige um delicado e constante entendimento entre mãe e pai, em equilíbrio com outros membros da família. Exige a capacidade de suportar o sofrimento de um ser que amamos profundamente, e de as vezes ser o motivo deste sofrimento temporário.

Criar filhos, acima de tudo, exige muito bom senso.

Mas o que é bom senso? Um conceito ligado à sensatez, a expressão “define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a determinadas realidades, considerando as consequências, para assim poder fazer bons julgamentos e escolhas” (Wikipedia).

Portanto, no que se refere a criar filhos: tomar as decisões e empreender as ações mais corretas, baseadas na cultura e no contexto em que vivemos; aquelas que trarão os melhores resultados e consequências para nossos filhos.

E de onde vem o bom senso? Do coletivo humano, da experiência refletida na cultura. Ou pelo menos vinha – nessa modernidade onde tudo se transforma com uma rapidez alucinante, já não sabemos se essa afirmação se sustenta.

Até há poucos anos tínhamos algumas referências para a construção do bom senso. Nosso mundo se sustentava em bases sólidas: a família, que não se restringia a um casal com filhos, mas a avós, tios, irmãos e agregados, vivendo na mesma casa ou muito próximos; o trabalho – as corporações, os sindicatos, depois as empresas; as religiões – até há pouco uma grande fonte de autoridade; os estados nacionais, definidores da vida pública, de padrões éticos; a literatura e outras formas de arte – e os valores por elas transmitidas.

O que nos resta, na segunda década do século XXI, de todas estas referências? Poeira. Retalhos ao vento. Nossas famílias ampliadas se dissolveram; nas grandes cidades, casais (em especial de classe média) vivem em isolamento em suas casas, quase sem contato com família ou mesmo amigos. Nossas empresas destilam muitas vezes um jargão infantil ou hipócrita, recheado de clichés, tratando seus colaboradores como crianças. As religiões perderam prestígio e autoridade, e o fundamentalismo cresce nas suas margens de forma furiosa e assustadora, afastando seres mais pensantes; mesmo o ateísmo se torna quase fundamentalista em nossos dias, negando às grandes tradições seu importantíssimo papel na transmissão de valores e cultura. Os estados nacionais, bem… esses se esfacelaram como fontes de autoridade, seja pela desmoralização dos políticos (absoluta, como em nosso caso), seja pela gestão desastrosa de politicas públicas e de arrochos econômicos e favorecimento de grupos financeiros. Finalmente, as leituras de grandes romances e filosofia cederam espaço aos textos de 140 caracteres, assim como obras primas do cinema foram substituídas por “blockbusters” cujo valor central é o do entretenimento compulsivo.

Um elemento veio, nos tempos atuais, a substituir todos estes “pilares” sobre os quais se sustentavam a sociedade e a cultura: os meios de comunicação. Primeiro a TV, as revistas e jornais, e agora as redes sociais são nossas principais referências de valores, ideias e modelos de comportamento. Perdemos as fontes de nossas identidades – e as buscamos no caldeirão de superficialidade e artificialidade que se tornou a maior parte do que é produzido pela mídia. Isso se intensifica com a onipresença dela, agora sempre ao alcance dos olhos, na palma de nossas mãos, no painel de nossos carros, nas mesas de escritórios e jantares de família, nos aparelhos que se tornaram extensões de nosso corpo.

Entregamos aos meios de comunicação grande parte de nossas decisões como pais e mães, algumas delas fundamentais para a educação de nossos filhos. E na nova ética do imediatismo e da comunicação acelerada, queremos repostas imediatas para tudo. As questões sobre filhos e filhas não geram mais reflexão e conversas – queremos um artigo cheio de “dicas” ou uma resposta do pediatra no whatsapp para temas que obviamente exigem uma conversa, uma reflexão, uma construção compartilhada das melhores soluções.

Neste turbilhão confuso, veloz e tão recente, não é à toa que estejamos tão perdidos na arte de criar filhos. Em vez de minha mãe, avó ou minha sogra, agora quem me diz o que fazer é o artigo da revista especializada (que vende publicidade, que tem interesses); a amiga virtual do grupo de mães do Facebook, o programa matinal na TV. Não há autoridade ou tradição: há pulverização, palpites divergentes, sugestões mágicas, sem base na experiência ou na ciência.

(Uma observação: o melhor fenômeno de comunicação nestes tempos são os textos de algumas mães blogueiras, alguns contendo verdadeiras preciosidades de reflexão, ativismo pela infância e experiência prática)

Vivemos uma era de perda do bom senso, substituído por conselhos e sugestões pouco consistentes, ou pior, por esquemas comerciais disfarçados – da indústria cosmética, alimentícia, farmacêutica, de brinquedos, da moda.

Pediatras e professores – referências importantes na saúde e educação de nossas crianças – muitas vezes não conseguem dar atenção às questões que mais angustiam pais e mães no dia a dia – ocupados que estão com doenças e educação escolar, problemas que naturalmente priorizam em seu atendimento à família.

Enfim, estamos perdidos. Digite ‘parenting” (algo como “ser pai e mãe ”ou “criar filhos”) no Google: você terá 350 milhões de páginas. São 240 milhões de sites só nos EUA. Milhões! Procure pela palavra chave na Amazon: mais de 100 mil livros.

Haja palpite. Como filtrar, como encontrar seu estilo, suas verdades, aquilo que quer para seu filho? Quer colocar seu filho para dormir? Você terá 30 livros e milhares de sites e revistas propondo estratagemas radicalmente diferentes – e em nenhum deles o indivíduo, o sujeito que é seu filho, e o contexto em que vive – sua família, nossa cultura – será levado em conta. Como encontrar a referência de autoridade (no melhor sentido da palavra – conhecimento, firmeza, serenidade) que você e seu filho precisam?

Pois eu conheço muitos casais, no Rio de Janeiro, que tiveram esse privilégio: encontraram uma fonte de bom senso.

Conheci Stephanie SapinLigniéres em torno de 1995. Desde então formou-se uma sólida amizade. Aprendi a admirar seu trabalho desde os primeiros encontros. Stephanie, francesa há muitos anos radicada no Brasil, é uma sage-femme (midwife, em inglês), profissão muito difundida na Europa e Canadá – países que se destacam pela boa saúde materno-infantil. No Brasil a sage-femme seria uma mescla de doula, parteira e consultora de amamentação. Nosso país ainda tem muito a evoluir na disseminação dessa profissão essencialmente feminina, que traz tantos benefícios para nossas mulheres e crianças. Fico feliz em ver o movimento de doulas crescendo e assumindo um papel importante na gestação e nascimento.

Mais do que a definição da profissão, vejo a questão semântica como muito mais definidora de quem é Stephanie: sage-femme – uma mulher sábia. Ela representa, para os casais que a procuram, com suas gestações e depois com seus bebês, uma fonte de sabedoria, de conhecimento tradicional e ao mesmo tempo científico, de cuidado, de acolhimento, de carinho, de limites e de orientação, de valor inestimável. Em resumo, Stephanie representa para esses casais o bom senso perdido.

Com suas orientações e seu curso, extremamente prático e voltado para as questões mais presentes no cotidiano dos primeiros dias do bebê, ela prepara casais para esse momento de forma sólida e tranquila. Quando o bebê nasce, ela continua seu trabalho, orientando na amamentação e nos primeiros cuidados, muitas vezes indo ao encontro de mães angustiadas com problemas para amamentar ou lidar com os choros de seus bebês.

Já recebi muitos casais que passaram pelas mãos carinhosas de Stephanie, e claro, outros que não tiveram contato com ela. Desde o inicio ficou claro para mim o valor de seu trabalho: são famílias que enfrentam esses primeiros momentos com mais tranquilidade, com uma referência, com bom senso. Também cometerão erros – são humanos – também se angustiarão, mas se apropriam de um rico conhecimento, que lhes dá mais tranquilidade e capacidade de lidar com o dia a dia de um bebê. Mais de uma vez vi a intervenção de Stephanie salvar uma família da perda da amamentação; aliviar a angústia e a exaustão de uma mãe que não dormia; ajudar um pai a encontrar seu melhor papel nesse momento. Milhares de casais passaram a demandar um parto mais humanizado por terem passado pelo seu curso.

Sua autoridade provém não apenas de sua formação, mas especialmente, de sua experiência com milhares de famílias. O que ela nos traz, com este livro, são ideias e conhecimentos que mesclam tradição, ciência e experiência pessoal. Stephanie representa a avó, a bisa, a sábia da aldeia, a grande mãe, figura símbolo da sabedoria feminina, que infelizmente perdemos nesses tempos de anomia e excesso de informação.

Suas posturas e opiniões não geram unanimidade – como aliás nenhuma postura ou opinião no mundo de hoje, muito menos numa questão tão intensa e cheia de controvérsia como o nascimento de um filho ou filha, onde para cada tema encontramos dezenas de posições diferentes. Mas é justamente por representar um conhecimento coletivo, a experiência acumulada e ao mesmo tempo atualizada – é que as informações, propostas e sugestões contidas neste livro podem ajudar de forma significativa na criação de um filho.

Nasceu – e agora? é um presente de Stephanie a tantos pais, mães e avós que não podem frequentar seu curso e agora tem em suas mãos uma referência de conhecimento e de experiência para cuidar de seus filhos – com carinho, com cuidado, e sobretudo, com bom senso

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