Nosso retrato na janela do ônibus

30.11.2015
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A saúde como bem estar pessoal, social, espiritual, vem se tornando o bem mais desejado pelos humanos. Nos últimos tempos, saúde passou a equivaler a beleza, boa forma física, longevidade. E portanto se transformando num sonho quase impossível. Quanto mais impossível, mais desejado.

Sabemos o que precisamos para ser saudáveis – tanto como indivíduos quanto como sociedade. Precisamos de boa alimentação, tão natural quanto possível. Precisamos de uma boa moradia, de saneamento e água limpa, de boas escolas, de relações harmônicas na família, de amor e afeto, de segurança, de esportes, lazer e recreação, de empregos decentes com bons salários, de um bom transporte coletivo e ruas menos engarrafadas e enfumaçadas, de apoio aos grupos vulneráveis como idosos e crianças, de respeito a direitos humanos e a regras de convivência, de espaços públicos bacanas, bem conservados e humanizados, de contato freqüente com a natureza, de acesso à cultura, de participação e democracia. Tudo isso constrói uma sociedade saudável – e para tanto, é imprescindível que estes fatores se distribuam de forma equitativa. Sociedades como a nossa, extremamente desiguais, geram perda da saúde – para ricos e pobres, como tantos estudos já cansaram de demonstrar.

O que quero dizer é que saúde não se alcança com medidas individuais apenas, como fazer exercício e dieta. Certamente elas são parte do necessário – cada um deve assumir a responsabilidade pela sua própria saúde, mas isso não é o bastante. Sobretudo para a maioria que não tem riqueza ilimitada, e o acesso à boa alimentação, exercício físico, lazer e tudo o mais fica mais difícil, cabe à sociedade e ao Estado realizar boas políticas públicas que ofereçam esse acesso.

Saúde é obviamente um produto social, mas não é o que o mercado quer que você acredite. Para ele, é importante que você creia que toda a solução está em suas mãos. E que se elas não funcionam, a culpa é sua, e então você tem que consumir mais e mais produtos e soluções para a saúde vendidos por ele, pelo mercado. O mesmo que vende a comida industrializada cheia de açúcar que faz você engordar e perder a saúde, que vende os carros que lotam as ruas e que fazem você chegar tarde em casa, não conseguir cozinhar uma boa refeição, fazer exercício ou conviver com seus filhos.

Assim funcionam as bases do sistema capitalista, na sua essência: a forma de organização da sociedade e o mercado criam os problemas; em vez de pensarmos nos fatores que causam os males, inventamos um produto que “soluciona” esses males – e que na maioria das vezes vai criar um problema ainda maior. O importante é fazer girar a roda do dinheiro. Até aí tudo bem, mas às custas da nossa saúde e a de nossos filhos?

Com essa racionalidade, convencidos pela publicidade, e com a sensação do fracasso inevitável, já que a saúde não depende unicamente de nós, nos tornamos consumidores compulsivos de “saúde”. Vamos desejar qualquer produto que prometa bem estar, beleza, longevidade, perda de peso, prazer, inteligência para nossos filhos, bom comportamento infantil, melhor performance em provas, prevenção absoluta de todos os males. Com o medo da doença – afinal, também faz parte da estratégia de mercado nos instilar o medo e nos convencer que o risco está em cada esquina – queremos comprar o melhor plano de saúde, o hospital mais chique (sim, hospital hoje se vende pela gripe e pelo luxo, não mais pelos bons serviços) os últimos remédios e vacinas, a cesárea eletiva e o leite mais Premium ou Supreme. Note que nesses casos estamos deixando de “consumir” aquilo que realmente nos traria – e a nossos filhos – mais saúde, e trocando por adoecimento vestido em latas douradas ou disfarçado em lobbies luxuosos, buffets e serviços de foto e vídeo.

Me impressionou muito, por exemplo o frenesi no qual as famílias se lançaram à caça da vacina de Meningite B, um produto potencialmente benéfico e importante, mas recém lançado e ainda pouco estudado: parecia que em vez de uma nova vacina, tínhamos um surto da doença, que se não vacinássemos nossos filhos imediatamente, a morte seria inevitável. Famílias se desesperando pelo fim temporário do estoque; subornando clinicas para passar na frente, gritarias no whatsapp. O surgimento de uma nova vacina, chiquérrima – afinal custa 600 reais a dose – nos torna tão frenéticos que esquecemos que não existia até então, e ela passa a ser uma necessidade urgente. Claro que isso é resultado de propaganda oculta e explicita, para médicos e para a população. Inauguramos o consumismo vacinal.

Esse amplo e complexo processo se chama medicalização social, e é um dos fenômenos mais pernósticos da sociedade, hoje. Provoca sérios problemas de saúde, e uma grave alienação individual e social. Se acreditamos que as soluções são todas dependentes do individuo e da compra de produtos, não só vamos consumir irresponsável e insustentavelmente, vamos também sentir culpa pelo constante fracasso (vai mais um antidepressivo aí?), e pior: vamos desistir da lutar pelas soluções coletivas, de participar. E isso é muito triste e perigoso.

Falando de crianças, esse contexto gera um excesso de medicalização da infância que vem provocando situações gravíssimas, individual e coletivamente. Quando ficamos felizes e aliviados por dar um antibiótico para uma criança que está com catarro e febre há dois dias, brincando e sorrindo (ou seja dar antibióticos para tratar uma gripe ou um resfriado); quando damos vermífugos sem avaliar se a criança tem ou não parasitas (exceto em contextos muito específicos); quando usamos derivados da cortisona repetidamente para crianças com viroses respiratórias; ou ainda pior, quando usamos remédios psiquiátricos, similares à cocaína e anfetaminas, para tratar distúrbios de comportamento causados por fatores ambientais, sociais e familiares, estamos causando prejuízos para a criança em si e também para a coletividade.

A ameaça global da resistência aos antibióticos pelo excesso e mau uso, por exemplo, é igual ou maior do que o risco de uma epidemia de Ebola. Individualmente, o uso excessivo e errôneo de medicamentos como esses pode causar doenças crônicas, obesidade, diabetes, alterações psiquiátricas na vida adulta, problemas ósseos e de imunidade, só para mencionar o que os estudos já estão começando a demonstrar. De novo*: estamos falando do uso errôneo, excessivo e abusivo de medicamentos que, quando bem usados, salvam vidas. Não vamos confundir. Mas fenômenos como médicos prescrevendo prednisolona (Predsim, Prelone), um corticóide potente, para tratar resfriados, ou pior, famílias comprando essas drogas como automedicação, é um fenômeno brasileiro e extremamente sério, e que traduz tragicamente nossa relação com o consumismo médico.

Já falamos e vamos voltar a falar desse assunto, que é importante, multifacetado e, infelizmente, extremamente disseminado em nossa sociedade. Mas só para encerrar, queria contar que essa reflexão foi inspirada por esse anúncio da foto, que vi num “busdoor” do Rio de Janeiro. Uma empresa de radiologia (ou sua agência de publicidade) que quer nos vender – ao público, diretamente, não aos médicos – que a Ressonância Magnética é sinônimo de alegria de crianças, correndo e brincando num parque. A mensagem oculta é que para sermos felizes e saudáveis, precisamos consumir ressonâncias, como símbolo de um exame caro, especializado, que só deve ser pensado, quanto menos solicitado, por um médico. O uso de crianças na imagem apelativa me deixou ainda mais chocado, pasmo. Mensagens como essa entram em nossa mente de forma sub-reptícia, e se alojam no nosso inconsciente. Da próxima vez que formos ao médico só vamos sossegar se ele pedir aquele exame que nos fará feliz. E aos nossos filhos, claro.

Torço pra que nós, como sociedade, possamos descobrir outras maneiras de sermos felizes e saudáveis, que não sejam consumir remédios, exames, dietas e acessórios caros. Brincando com nossos filhos na praça, nos museus e na praia, e fazendo um piquenique com comida da boa, num parque público, no próximo fim de semana, por exemplo.

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