Palavras para encontrar nossos filhos e filhas

01.12.2015
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(não perca o texto no final)

Neste Dia Universal da Criança (21/11), uma homenagem (republicada) a um personagem maravilhoso, pouco conhecido entre nós, que abriu o caminho para a concepção que temos hoje do universo infantil: a criança como um sujeito, como um pessoa com direitos e sobretudo, a ser tratada com respeito e afeto.

Pois é, nem sempre foi assim. O Iluminismo europeu, especialmente na Alemanha, deu origem a uma série de teorias sobre a educação da criança: rigor, disciplina férrea, privação de afeto, horários rígidos e trabalho duro era o que se acreditava, resultaria num adulto bem formado, adequado à sociedade. Crueldade, frieza e mesmo violência davam o tom.

Janusz Korcak, pediatra e educador, surge com a coragem dos grandes personagens da história, virando o jogo. Ousou dizer que a criança é uma pessoa com direitos – um escândalo na época. Trouxe para a pedagogia a noção de que a criança deveria ser tratada com amor e respeito. Escreveu vários livros infantis e livros sobre educação, alguns dos quais se tornaram referencias até hoje. Korcak foi um precursor da pedagogia de Paulo Freire. Propôs a educação democrática, e nos dois orfanatos que dirigiu, as crianças participavam do “governo” com instituições como tribunal e parlamento.

Korcak era filho de pai judeu e mãe católica, e nos últimos anos se dedicou a dois orfanatos, um de crianças judias e outro de católicas. No inicio de 2a guerra, se alistou como médico no exército polonês mas foi recusado devido à sua idade. Com a chegada dos nazistas à Varsóvia, acompanhou as crianças judias à reclusão no gueto, onde passaram necessidades e todo tipo de violência. Como um homem conhecido e respeitado na Polônia, Korcak teve diversos convites para deixar o gueto e se salvar. Mas ele preferiu ficar com suas crianças, e permaneceu ao lado delas até o fim: foram todos assassinados nas câmaras de gás do campo de extermínio de Treblinka em 1942.

Este homem escreveu, em seu livro “Como Amar uma Criança” o mais belo texto sobre o encontro entre um pai ou uma mãe e um filho recém nascido, que adaptei aqui. Nunca deixei de me emocionar ao ler esse texto. Fica como homenagem a todos os que viveram ou viverão um momento como esse, e ao próprio Janusz Korcak.

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“A criança que você pôs no mundo pesa cerca de dez libras. É feita de oito libras de água e de um punhado de carbono, cálcio, nitrogênio, sulfato, fósforo, potássio e ferro. Você deu à luz a oito libras de água e duas libras de cinzas. Assim, cada gota de seu filho era o vapor da nuvem, o cristal da neve, da bruma, do orvalho, da água da nascente e da lama do esgoto. Milhões de combinações possíveis de cada átomo de carbono ou nitrogênio.

Você apenas reuniu o que já existia.

Olhe a Terra suspensa no infinito.
O Sol, seu próximo companheiro, está a cinqüenta milhões de milhas.
Nosso pequeno planeta não é mais que três mil milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas.
Sobre esta fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos.
Sobre estes continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais – o ruído dos homens.

Entre estes milhões de homens, está você, que deu à luz a um homem a mais. O que é ele? Um galhinho, uma poeira – um nada.
É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.

Mas este nada é irmão das vagas do mar, do vento, do relâmpago, do Sol, da Via Láctea. Este grão de poeira é irmão da espiga de milho, da relva, do carvalho, da palmeira, irmão de um passarinho, do filhote de leão, de um cãozinho.

Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e que rejeita.

Este grão de poeira encerra em seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o universo, faltando apenas as suas dimensões.
É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele”.

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