Primeiro Assédio de uma Criança

01.12.2015
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Hoje é um dia triste pra mim. Me sinto cansado, machucado, com minha esperança num mundo melhor amputada – mas só em parte, claro, porque a gente não desiste.

Fui entrevistado pelos jornais da manhã e da noite da TV Bandeirantes sobre o caso do menino que tem um acesso de fúria na escola. Não fiquei muito contente com minha fala, estava um pouco em choque com o que tinha visto, mas o principal foi dito. A Carol Menezes, parceira no canal Criar e Crescer, editou os dois videos e retirou as imagens – pois nos recusamos a fazer circular um filme onde uma criança de 7 anos é submetida a uma exposição degradante e ao abuso psicológico, é vítima de cyberbullying, perpetrado por adultos que deveriam estar cuidado dela.

Não quero comentar aqui toda a história. Quero falar do que me entristece.

Me entristece que profissionais que trabalham numa escola, que deveriam estar preparados para atender e cuidar de um menino de apenas 7 anos, obviamente em grande sofrimento (sim, amigos, essa criança está sofrendo), esqueçam que são responsáveis por ela, a deixem à deriva num ataque de violência, em vez de pensar em protegê-la, acalmá-la. Em vez de tomar uma atitude minimamente humana, que seria contê-la de forma adequada, retirá-la do ambiente e buscar a escuta e o acolhimento, ficam murmurando desculpas esfarrapadas para não fazê-lo (“não pode tocar nele”), e na verdade sutilmente incitando o menino a continuar. E possivelmente desfrutando do show de fúria, e antecipando o sucesso que seu vídeo criminoso faria nas redes sociais. Às custas da humilhação de uma criança e sua família, expondo sua intimidade e seu sofrimento.

Me entristece, muito em especial, que no STF, o Superior Tribunal do Facebook, guiado por seus juízes e semideuses da Intolerância, da Violência e da Superficialidade, essa criança tenha sido condenada à morte. Sim, mataram esse menino e mataram um pedaço da esperança junto com ele. Milhares de declarações condenando uma criança de 7 anos a ser um bandido. Um marginal, um monstro. Ninguém se pergunta quem é o menino, em que condições vive, em que contexto ele estava tendo uma crise obviamente sintomática de algum grande sofrimento. Ninguém olha para a perversidade a que está sendo submetido – no momento do vídeo, pela absoluta falta de empatia e cuidado, na atitude cruel dos adultos em volta dele.

A atitude de uma grande parcela de nossa sociedade, espelhada na rede social, é propor que essa criança seja espancada, com cinto, vara de marmelo, palmatória, seja trancada em casa. Num certo comentário, um sujeito afirma que esse menino de 7 anos, primeira série, deveria ser executado para que não pudesse procriar. Não foi um louco isolado que pensou isso: essa ideia recebeu centenas de likes em minutos. Acreditem. Os comentários nas minhas duas entrevistas me xingam e ofendem de todo tipo de nomes, e nenhum – vejam bem, nenhum, apóia a ideia de que esta criança precisa de ajuda, acolhimento, compreensão, em vez de espancamento, execução e humilhação.

Só como uma nota irônica, a criança é, como você bem imaginou, negra e pobre.

Lembrando o que nos dizem as pesquisas (fala a neuro-cientista Andreia Mortensen): “a punição física em crianças está associada ao aumento dos níveis de agressão infantil, além de não ser mais efetivo em estimular a obediência quando comparado a outros métodos. Além disso, a punição física durante a infância está associada a problemas de comportamento na vida adulta, incluindo depressão, tristeza, ansiedade, sentimentos de melancolia, uso de drogas e álcool, e desajuste psicológico geral….“.

É muito impressionante se defrontar com essa violência brutal, e compreender de fato porque 500 mil crianças são espancadas por ano no Brasil. Porque a cada hora, cinco casos de violência contra a criança são registrados no Disque Denúncia – e na verdade são muito mais. É muito triste entender que somos uma sociedade que pratica a violência contra a criança no dia a dia, que criminaliza o comportamento infantil. Não é por nada que mais de 80% da sociedade brasileira apóia a redução da maioridade penal. E se fosse para 12 ou 10 anos, talvez continuasse apoiando. Não é por nada que medicamos dezenas de milhares de crianças com medicamentos psicoativos, derivados de anfetaminas ou anti-psicóticos, para “regular” o “mau” comportamento de crianças de até 4 anos (não estamos falando aqui das crianças que precisam realmente de tratamento).

A parcela da sociedade que julga, criminaliza e propõe maltratar essa criança, é aquela mergulhada na cultura da violência, muitas vezes sem se dar conta. A mesma cultura (atenção: não estou dizendo que quem acredita em palmada é psicopata ou fascista) que prega que a culpa do estupro é da vitima, que agride a mulher ou ridiculariza o seu assédio, que acha que terra de índio tem que ser invadida pra ser produtiva, que a solução para a violência é andar armado e permitir que condenados e bêbados usem armas, que propõe que a única solução para o problema da droga é a violência que só alimenta a morte de inocentes e destrói nossa segurança, que persegue e agride homossexuais e umbandistas, que ofende o negro ou o pobre, que acha ecologia é coisa de chato, que tem que derrubar floresta inútil para produzir mais soja porque afinal, isso é dinheiro….

E essa parcela mis violenta da nossa sociedade parece que está crescendo, mais vocal, mais orgulhosa. Para quem conhece a expressão, não se trata do ovo da serpente, trata-se de um terreno infestado por elas. A cultura da violência cresce no Brasil; as redes sociais parecem promovê-la, as polarizações e conflitos se acirram e se agravam. Mas ela não é de hoje – ela vem da chegada dos portugueses. Temos muita violência em nossa historia.

Minha esperança de transformação reside na outra atitude crescente dessa sociedade: a de pais e mães que compreendem que uma criança aprende pelo diálogo, e não pelo tapa. Ou melhor ainda: que compreendem e reconhecem que o castigo físico é errado e ineficaz, e mudam sua conduta. De grupos de mães que saem às ruas com seus bebês para protestar contra a corrupção. De movimentos nas redes, de escolas públicas e privadas que defendem a infância de inimigos como a violência e a publicidade dirigida à criança, que propõe o livre brincar e o usufruto da cidade e da natureza, a convivência, a empatia e a tolerância, de grupos que defendem os direitos de crianças e adolescentes, que propõe mudanças na educação, que trabalham pela inclusão de crianças com diferenças ou com deficiências. Que defendem a cultura da paz, da equidade, da justiça, da sustentabilidade e do convívio.

Sei que muitos dos que lêem este blog, ao ver as imagens do vídeo, devem ter pensado que o menino merece apanhar. Talvez você tenha sentido raiva dele, o tenha julgado e condenado. Isso não é “culpa” sua. Você foi induzido a isso, pela filmagem descontextualizada. Você está imerso nessa cultura da violência e cresceu nela também. Mas você pode se transformar. Sempre digo que nossos filhos nos desafiam a ser pessoas melhores. Para isso, é preciso aceitar que há alternativas, e buscar apoio. É possível educar sem bater, disciplinar sem castigo físico ou abuso verbal.

E é tarefa nossa – profissionais que lidam com a infância – ensinar às famílias brasileiras formas mais amorosas, saudáveis e efetivas de educar nossos filhos.

É possível mudar essa cultura, e educar sem violência é um portal fundamental para essa mudança. Para que nossos filhos, como adultos, saibam resolver problemas e conflitos colaborando, pensando, com solidariedade e empatia. Vai demorar, mas chegamos lá.
PS.: antes de encerrar este texto, uma nota. Muitos dos comentários nas redes vem de professores. Não está nada fácil a vida para esses profissionais, que são responsáveis por uma boa parte da educação de nossas crianças. Tem rotinas extenuantes, recebem alunos sem limites, que vem de famílias ausentes, condições de vida difíceis, comunidades mergulhadas na miséria e na violência. E são agredidos, ameaçados. Fazem o possível para ensinar em escolas sem estrutura e conforto mínimos, superlotadas e abandonadas. Essa questão deve ser levada em conta, é claro, quando se pensa em educação no Brasil. Criticar os adultos nesse vídeo não é, de maneira nenhuma criticar os professores. Mas a atitude destes funcionários, sejam que profissionais forem, é inaceitável. Tanto que foram suspensos pela secretaria de educação de Macaé, que está analisando o caso.

Café com Jornal, da manhã:
https://www.facebook.com/525686737578519/videos/537860446361148/

Jornal da Band
https://www.facebook.com/525686737578519/videos/537892239691302/

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