Remédios são ótimos, mas só quando necessários

26.11.2015
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Queridos leitores:
Estou editando essa publicação em função de alguns (poucos) comentários que me deixaram preocupado. Algumas pessoas escreveram que agora não sabem se vão continuar usando um remédio prescrito por seu médico.
Fiz questão de afirmar repetidas vezes no texto que remédios são ótimos quando bem usados e indicados. Inclusive o montelucaste em questão, assim como corticoides e antibióticos.
Todos os remédios tem efeitos colaterais, em geral raros. Quase tudo em medicina é uma questão de risco versus benefício. Como escrevi diversas vezes: se seu filho usa porque precisa, está certíssimo continuar. E sobretudo: nunca substitua a orientação de seu pediatra por um texto. O objetivo dessa página não é, de forma nenhuma, gerar dúvidas ou ocupar o lugar de um profissional de saúde: é apenas comentar e alertar sobre questões importantes para as famílias e criticar certos aspectos da prática médica que precisam ser reformulados.
Aqui estamos falando do excesso e do mau uso de certos remédios, em certas situações. Na dúvida, sempre procure o seu pediatra.

Remédios: ótimos, mas só quando necessários

Não é fácil, nem para médicos nem para pacientes, ouvir e falar sobre efeitos colaterais de remédios. Em especial remédios que funcionam, e melhoram problemas muito incômodos ou mesmo graves em nossos filhos.

Apesar disso, é preciso saber que o uso de remédios às vezes tem um custo alto ou riscos importantes. Por isso devem ser usados de forma muito criteriosa.

Um dos mais sérios problemas da medicina hoje é o abuso de remédios, especialmente o uso não indicado. Podemos dizer que na grande maioria dos casos, eles são usados para tratar quadros infecciosos virais, que melhorariam espontaneamente em 3-4 dias. Isso ocorre em especial nas emergências, muitas vezes não por imperícia médica, mas pela insegurança do profissional em deixar uma criança (que ele não vai poder acompanhar) sem o remédio, quando ele pode vir a ser necessário; ou pela ansiedade da família. Antibióticos podem ser extremamente valiosos em inúmeras situações, onde salvam vidas muitas vezes. Mas o abuso está provocando problemas gravíssimos como a crescente resistência das bactérias a essas substâncias, que gera um grande risco à saúde pública.

Um tipo de abuso mais recente, já reportado aqui, é o dos corticoides. Substancias anti-inflamatórias potentes, eles são muito importantes por exemplo para certos casos de asma, alergias, doenças autoimunes e câncer. Em algumas infecções agudas eles podem ajudar também – como na meningite e sinusite. Mas o uso dessas substancias para infecções virais está se tornando muito comum e pode representar um grande problema. Eles vem sendo usado em resfriados, otites, dor de garganta, gripes, quando não serão de serventia e sobretudo, são contra indicados. E o uso repetido (se uma criança alérgica ou que entra cedo na creche usar um corticoide a cada vez que tiver tosse, serão dezenas de tratamentos por ano) ou prolongado tem efeitos colaterais graves. A coisa anda tão seria que famílias já compram esses remédios (os nomes comerciais mais populares são Predsim e Prelone) sem receita e sem falar com um médico, ignorando que isso representa um sério perigo para seus filhos.

Uma outra classe de remédios vem sendo mal usada ultimamente: os inibidores de leucotrienos. Muito eficazes no tratamento da asma crônica, na prevenção da asma induzida pelo exercício e de certos casos de infecções respiratórias de repetição, e no alívio de da rinite alérgica mais intensa, eles vem sendo usados para casos leves de resfriados repetidos em bebês que entram na creche, por exemplo. Basta uma segunda otite e a criança já começa a usar o Montelucaste (nomes comerciais mais populares: Singulair e Montelair).

A FDA americana (US FoodandDrugAdministration) vem alertando profissionais de saúde sobre uma possível associação entre o uso de inibidores de leucotrienos e eventos neuropsiquiátricos desde 2008. Após o início da comercialização, vem sendo relatados eventos como agitação, agressividade, ansiedade , anormalidades de sonho, alucinações, depressão, insônia, irritabilidade, tremor, diminuição da memória, sonambulismo, pensamento e comportamento suicida. As informações foram adicionadas ao rótulos dos produtos em 2009.

Recentemente a FDA reuniu seu Comitê Consultivo em Pediatria sobre o assunto, e a conclusão foi a de que os profissionais devem ser alertados sobre o problema de modo mais veemente. Muitos médicos não estão cientes ou não comunicam o risco de eventos neuropsiquiátricos aos pacientes.

A bula do Singulair no Brasil faz uma menção muito discreta sobre o problema. Depois de vários parágrafos reportando estudos (provavelmente financiados pela indústria farmacêutica), sobre a segurança do remédio, vem o seguinte texto:
“Foram relatadas as seguintes reações adversas adicionais após a comercialização: ….anormalidades no padrão de sonhos e alucinações, sonolência, irritabilidade, agitação, insônia e muito raramente convulsão; náuseas, vômitos, dispepsia, diarréia; mialgia, incluindo cãibras; aumento da propensão ao sangramento, hematoma; e edema”.

Os médicos são visitados diariamente por propagandistas de laboratórios, que falam eloquentemente das qualidades dos remédios, e nunca sobre riscos e efeitos colaterais. A foto abaixo mostra bem o tipo de estratégia da indústria, associando alegria à prescrição do medicamento. Essa mensagem funciona, e mesmo que o profissional estude sobre a substância, o marketing tem um efeito potente na sua mente e na sua conduta terapêutica.

A maioria dos pediatras – eu inclusive – já usou e usa montelucaste. É uma droga importante e eficaz. Mas como todas as outras, tem riscos – mesmo que sejam raros, esses efeitos colaterais são graves. Para minimizá-los, basta usar os remédios apenas quando são indicados. O mesmo se aplica para antibióticos e corticoides.

As famílias devem ser informadas dos riscos (principal preocupação do painel da FDA), pois se um sintoma como esse se desenvolve – por exemplo, uma criança se torna irritada a agitada durante o uso do Singulair – é preciso antes de mais nada interromper o tratamento. Os sintomas são felizmente reversíveis.

Aliás, do jeito que a nossa sociedade anda medicalizando a infância, é preciso interromper o tratamento antes que a criança acabe tomando um “tarja preta” para ficar mais calma…

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