Todos Estão Seguros – Menos os Bebês

28.10.2013
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Imagine a cena: numa viagem, você e sua família estão embarcando numa lancha para uma travessia obrigatória. Uma tremenda tempestade se aproxima, o mar está revolto. Todos são obrigados a vestir um colete salva vidas. Você pede ao capitão um colete para sua bebê de colo, e ele informa que infelizmente não há nenhum colete apropriado para sua filha. Pior: digamos que você tenha trazido um colete para bebês de casa; ele não deixa você usar porque “não está de acordo com as normas da companhia”. Você arriscaria a vida dela ou preferiria não embarcar? E se você tivesse que embarcar, como se sentiria durante a viagem?

Pois é. Por motivos incompreensíveis, arriscamos a vida de nossos filhos pequenos a cada vez que embarcamos numa prosaica viagem de avião – hoje tão populares. A situação é tão absurda que pede uma revolução. E pelo jeito ela tem que partir de pais e mães que viajam com seus filhos.

O paradoxo: num avião, há uma verdadeira obsessão com segurança, certo? Quantas vezes eles nos repetem que “os cintos devem estar sempre afivelados”? Um dos riscos da viagem aérea é a turbulência, comum e banal, mas que pode ser muito violenta e totalmente inesperada, as vezes. Por isso você certamente já ouviu o pedido de manter o cinto afivelado “durante toda a viagem”, mesmo quando dormindo.

E o que acontece quando você tem uma criança menor de 2 anos? Na maioria das vezes, na decolagem e aterrissagem ela deve ficar no seu colo. Sim, claro, e com seu abraço firme e amoroso de pai ou mãe, você jamais permitirá que ela sofra nenhum mal.

O problema – e muita gente não sabe disso – é que seus braços simplesmente não são capazes de segurar seu filho com segurança em qualquer situação de movimento mais brusco ou violento, como uma turbulência inesperada ou uma aterrissagem acidentada. “É fisicamente impossível conter uma criança no colo, não importa o quanto um pai ama um filho, dadas as forças de desaceleração de uma aeronave em um acidente”, diz Patricia Friend, presidente da Associação Americana de Comissários de Bordo.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, “há evidências científicas de que num desastre aéreo o risco de traumatismo grave e morte de crianças conduzidas no colo chega a ser dez vezes maior do que o de um passageiro com cinto de segurança. Em caso de turbulência, situação em que as companhias aéreas costumam exigir o afivelamento do cinto de segurança de todos os passageiros, crianças conduzidas no colo têm risco muito grande de traumatismo grave e até morte”.

Temos então uma situação digna de uma comédia surrealista em todos os aviões onde viajam bebês: tudo na aeronave está devidamente contido e seguro – inclusive as garrafas de vinho e as xícaras de café da primeira classe, todas estocadas com alta tecnologia – exceto…. as crianças. Pelo jeito, para estas companhias, as xícaras valem mais que nossos filhos.

E aí vem a grande confusão: como oferecer segurança aos bebês num avião? O Departamento de Segurança da Sociedade Brasileira de Pediatria, como a Federal Aviation Administration (FAA, dos EUA), recomenda que “crianças de qualquer idade viagem de avião num assento individual, acomodadas da mesma maneira como nas viagens de automóvel. Bebês menores de 1 ano e 10 kg devem ir num assento de segurança tipo bebê-conforto, voltado para trás; crianças entre 10 e 20 kg devem ir num assento de segurança voltado para a frente; crianças com mais de 20 kg, em torno de cinco anos, podem usar o cinto de segurança regular da aeronave”.

O problema é que bebês até dois anos em geral não tem assento designado, pois as companhias permitem que viajem gratuitamente no colo dos pais. Muito poucas famílias pagariam pelo assento, quando podem usufruir da gratuidade. A própria FAA se recusa a adotar a obrigatoriedade do uso de assentos de segurança infantis nos vôos, com o argumento de que muitos pais se recusariam a pagar o preço de um bilhete extra e optariam por viajar de automóvel, o que causaria um número muito maior de mortes e traumatismos de crianças no trânsito.

E ai configura-se essa situação absurda: bebês viajam de avião sem nenhuma proteção. E os acidentes acontecem, sim. A maioria das companhias aéreas hoje em dia oferecem uma proteção mínima: um cinto que se conecta ao cinto do pai ou da mãe, permitindo que o bebê de colo fique contido sem que seja esmagado no caso de uma desaceleração. Mas de novo, esse mecanismo não é oficialmente autorizado. Com a confusão instaurada, vemos de tudo. A Gol, por exemplo, chega às raias do absurdo, Vejam este relato:

“…Temos viajado de avião do Rio de Janeiro a Brasília pela Gol. Em uma das viagens, bloqueamos o assento do meio e nos preparamos para colocar a Sofia nele, com o bebê conforto preso ao cinto de segurança. Porém, isso não foi autorizado pelas comissárias da Gol, que informaram que isto seria proibido pelos protocolos de segurança deles. Ainda argumentamos que isso era contrário aos protocolos internacionais de segurança, mas não houve solução possível. Para não criar confusão, embora relutantes, embarcamos com a Sofia no colo, presa apenas a um canguru.”

Não só a companhia não permite aquilo que é considerado mais seguro, como também não oferece o cinto para bebês. Não há justificativa possível para tamanha estupidez. A American Airlines há pouco não permitiu que um pai utilizasse um assento vazio para instalar sua cadeirinha argumentando que “incomodaria o passageiro ao lado”. A morte ou um ferimento grave da criança incomodaria a quem?

Eu recomendo às famílias, antes de uma viagem aérea, que liguem para a companhia e verifiquem qual a política de segurança para crianças de colo. Que exijam o fornecimento do cinto para bebês. E que seja permitido usar um assento vazio para colocação de uma cadeira apropriada. Sugiro também que levem como último recurso um dispositivo do tipo canguru, que no mínimo oferece uma contenção minimamente firme aos bebês, conectados ao corpo do cuidador. Mesmo que oficialmente não autorizado, me parece melhor que um bebê “solto” no colo de um adulto.

Uma alternativa para crianças entre 10 e 20 kg é um dispositivo que pode ser encontrado aqui (o único autorizado pela Federal Aviation Administration dos EUA): http://kidsflysafe.com/. Ele pode substituir a cadeirinha de carro, e portanto exige um assento designado para a criança. Para conter de forma mais adequada crianças de colo existe um outro dispositivo: Baby B’Air Flight Vest – veja em http://babybair.com/ - mas este não é referendado pela FAA.

Caso uma companhia aérea não permita a instalação de um assento apropriado, ou não forneça um cinto para o bebê, sugiro que os pais gravem em vídeo essa recusa e utilizem depois em processos judiciais. Talvez se um número de famílias significativo exigir o direito de segurança para o bebê, as companhias comecem a se mobilizar. É hora também das empresas oferecerem a opção de uma passagem com direito a assento para bebês, com um desconto significativo na tarifa. Mas em nosso mundo, onde o “mercado” dita as normas mais do que a vida e a segurança, dificilmente chegaremos a uma solução justa e segura sem muita briga.

Convido leitoras e leitores a relatarem nos comentários suas experiências com as companhias aéreas. Isso pode, no mínimo, nos ajudar a escolher com quem saímos do chão – ou não.

Foto: Todos Estão Seguros – Menos os Bebês

Imagine a cena: numa viagem, você e sua família estão embarcando numa lancha para uma travessia obrigatória. Uma tremenda tempestade se aproxima, o mar está revolto. Todos são obrigados a vestir um colete salva vidas. Você pede ao capitão um colete para sua bebê de colo, e ele informa que infelizmente não há nenhum colete apropriado para sua filha. Pior: digamos que você tenha trazido um colete para bebês de casa; ele não deixa você usar porque “não está de acordo com as normas da companhia”. Você arriscaria a vida dela ou preferiria não embarcar? E se você tivesse que embarcar, como se sentiria durante a viagem?

Pois é. Por motivos incompreensíveis, arriscamos a vida de nossos filhos pequenos a cada vez que embarcamos numa prosaica viagem de avião – hoje tão populares. A situação é tão absurda que pede uma revolução. E pelo jeito ela tem que partir de pais e mães que viajam com seus filhos.

O paradoxo: num avião, há uma verdadeira obsessão com segurança, certo? Quantas vezes eles nos repetem que “os cintos devem estar sempre afivelados”? Um dos riscos da viagem aérea é a turbulência, comum e banal, mas que pode ser muito violenta e totalmente inesperada, as vezes. Por isso você certamente já ouviu o pedido de manter o cinto afivelado “durante toda a viagem”, mesmo quando dormindo.

E o que acontece quando você tem uma criança menor de 2 anos? Na maioria das vezes, na decolagem e aterrissagem ela deve ficar no seu colo. Sim, claro, e com seu abraço firme e amoroso de pai ou mãe, você jamais permitirá que ela sofra nenhum mal.

O problema – e muita gente não sabe disso – é que seus braços simplesmente não são capazes de segurar seu filho com segurança em qualquer situação de movimento mais brusco ou violento, como uma turbulência inesperada ou uma aterrissagem acidentada. "É fisicamente impossível conter uma criança no colo, não importa o quanto um pai ama um filho, dadas as forças de desaceleração de uma aeronave em um acidente”, diz Patricia Friend, presidente da Associação Americana de Comissários de Bordo. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, “há evidências científicas de que num desastre aéreo o risco de traumatismo grave e morte de crianças conduzidas no colo chega a ser dez vezes maior do que o de um passageiro com cinto de segurança. Em caso de turbulência, situação em que as companhias aéreas costumam exigir o afivelamento do cinto de segurança de todos os passageiros, crianças conduzidas no colo têm risco muito grande de traumatismo grave e até morte”.

Temos então uma situação digna de uma comédia surrealista em todos os aviões onde viajam bebês: tudo na aeronave está devidamente contido e seguro – inclusive as garrafas de vinho e as xícaras de café da primeira classe, todas estocadas com alta tecnologia – exceto.... as crianças. Pelo jeito, para estas companhias, as xícaras valem mais que nossos filhos.

E aí vem a grande confusão: como oferecer segurança aos bebês num avião? O Departamento de Segurança da Sociedade Brasileira de Pediatria, como a Federal Aviation Administration (FAA, dos EUA), recomenda que “crianças de qualquer idade viagem de avião num assento individual, acomodadas da mesma maneira como nas viagens de automóvel. Bebês menores de 1 ano e 10 kg devem ir num assento de segurança tipo bebê-conforto, voltado para trás; crianças entre 10 e 20 kg devem ir num assento de segurança voltado para a frente; crianças com mais de 20 kg, em torno de cinco anos, podem usar o cinto de segurança regular da aeronave”.

O problema é que bebês até dois anos em geral não tem assento designado, pois as companhias permitem que viajem gratuitamente no colo dos pais. Muito poucas famílias pagariam pelo assento, quando podem usufruir da gratuidade. A própria FAA se recusa a adotar a obrigatoriedade do uso de assentos de segurança infantis nos vôos, com o argumento de que muitos pais se recusariam a pagar o preço de um bilhete extra e optariam por viajar de automóvel, o que causaria um número muito maior de mortes e traumatismos de crianças no trânsito.

E ai configura-se essa situação absurda: bebês viajam de avião sem nenhuma proteção. E os acidentes acontecem, sim. A maioria das companhias aéreas hoje em dia oferecem uma proteção mínima: um cinto que se conecta ao cinto do pai ou da mãe, permitindo que o bebê de colo fique contido sem que seja esmagado no caso de uma desaceleração. Mas de novo, esse mecanismo não é oficialmente autorizado. Com a confusão instaurada, vemos de tudo. A Gol, por exemplo, chega às raias do absurdo, Vejam este relato:

“...Temos viajado de avião do Rio de Janeiro a Brasília pela Gol. Em uma das viagens, bloqueamos o assento do meio e nos preparamos para colocar a Sofia nele, com o bebê conforto preso ao cinto de segurança. Porém, isso não foi autorizado pelas comissárias da Gol, que informaram que isto seria proibido pelos protocolos de segurança deles. Ainda argumentamos que isso era contrário aos protocolos internacionais de segurança, mas não houve solução possível. Para não criar confusão, embora relutantes, embarcamos com a Sofia no colo, presa apenas a um canguru.”

Não só a companhia não permite aquilo que é considerado mais seguro, como também não oferece o cinto para bebês. Não há justificativa possível para tamanha estupidez. A American Airlines há pouco não permitiu que um pai utilizasse um assento vazio para instalar sua cadeirinha argumentando que “incomodaria o passageiro ao lado”. A morte ou um ferimento grave da criança incomodaria a quem?

Eu recomendo às famílias, antes de uma viagem aérea, que liguem para a companhia e verifiquem qual a política de segurança para crianças de colo. Que exijam o fornecimento do cinto para bebês. E que seja permitido usar um assento vazio para colocação de uma cadeira apropriada. Sugiro também que levem como último recurso um dispositivo do tipo canguru, que no mínimo oferece uma contenção minimamente firme aos bebês, conectados ao corpo do cuidador. Mesmo que oficialmente não autorizado, me parece melhor que um bebê “solto” no colo de um adulto. 

Uma alternativa para crianças entre 10 e 20 kg é um dispositivo que pode ser encontrado aqui (o único autorizado pela Federal Aviation Administration dos EUA): http://kidsflysafe.com. Ele pode substituir a cadeirinha de carro, e portanto exige um assento designado para a criança. Para conter de forma mais adequada crianças de colo existe um outro dispositivo: Baby B'Air Flight Vest – veja em http://babybair.com - mas este não é referendado pela FAA.

Caso uma companhia aérea não permita a instalação de um assento apropriado, ou não forneça um cinto para o bebê, sugiro que os pais gravem em vídeo essa recusa e utilizem depois em processos judiciais. Talvez se um número de famílias significativo exigir o direito de segurança para o bebê, as companhias comecem a se mobilizar. É hora também das empresas oferecerem a opção de uma passagem com direito a assento para bebês, com um desconto significativo na tarifa. Mas em nosso mundo, onde o “mercado” dita as normas mais do que a vida e a segurança, dificilmente chegaremos a uma solução justa e segura sem muita briga.

Convido leitoras e leitores a relatarem nos comentários suas experiências com as companhias aéreas. Isso pode, no mínimo, nos ajudar a escolher com quem saímos do chão - ou não.

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