Uma epidemia perigosa – e desnecessária

27.12.2013
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Resfriados e infecções respiratórias virais: o problema de saúde mais comum e banal na infância. Não há nada que cure os resfriados, claro, mas temos hoje boas opções para atenuar os sintomas. Mas curiosamente, é a condição que provoca mais medicação desnecessária, e mais recentemente, a mais absurda. Estamos diante de uma perigosa epidemia de prescrições altamente prejudiciais à saúde.

O problema anterior era mais “simples”: antibióticos usados indevidamente. A chance de levar seu filho resfriado ou gripado a uma emergência e sair com prescrição (desnecessária) de antibióticos é algo em torno de 80%. Não trataria isso como um “erro médico”. O contexto torna a situação mais complexa. O clima de uma consulta na emergência é indutivo a este tipo de prescrição: a precipitação e angústia (= pressão) dos pais, a preocupação do médico em medicar de alguma forma uma criança que não vai poder acompanhar (se bem que isso deveria ser possível), e outros fatores.

O antibiótico mal indicado deve ser evitado a todo custo. A maioria dos danos é relacionada com alergias e alterações da flora intestinal. Alguns tem efeitos colaterais mais sérios e podem danificar o fígado e rim, por exemplo, mas são pouco usados em pediatria. E os efeitos mais graves são muito raros, felizmente. É interessante notar que o pior dano é para a sociedade, não para o individuo: o aumento da resistência bacteriana aos próprios antibióticos, que hoje gera um perigo real de termos doenças infecciosas incuráveis e muito mais letais.

Só que ultimamente tem ocorrido um problema talvez ainda mais grave. E com uma substância por um lado milagrosa, e por outro extremamente daninha e perigosa. Essa não precisa do acaso para causar danos sérios – só de tempo.

Chama-se corticóide (ou corticosteróides, popularmente chamados de “cortisona”). Baseadas na molécula do cortisol, o chamado hormônio do stress, um variado grupo de produtos vem sendo oferecido pela indústria e muito bem assimilado pelos médicos. Tanto que vem sendo freqüentemente usados em indicações que não existem na literatura médica científica.

Como no caso dos antibióticos, ainda bem que esses remédios existem. O efeito dos corticóides é reduzir a inflamação. Inflamação é a reação essencial de defesa do corpo. No entanto, ela pode ser excessiva, ou se voltar contra nosso próprio organismo. Nestas ocasiões, o uso de corticóides muitas vezes é necessário.

Eles são fundamentais no tratamento de várias doenças agudas ou crônicas, e para a sobrevivência e a qualidade de vida de muitas crianças e adultos. São usados com sucesso em artrites, dermatites, reações alérgicas, asma, sinusites e rinites crônicas, lúpus, doenças inflamatórias do intestino, doenças auto-imunes; em formulações tópicas para casos de doenças da pele e dos olhos, rinites, asma e outras. Tem efeitos benéficos em certos tipos de meningite e vários tipos de câncer. Enfim, podem ser extremamente úteis.

Em qualquer infecção existe algum grau de inflamação – no resfriado e na gripe, por exemplo, o vírus causa inflamação das vias aéreas, as mucosas do nariz, garganta, seios da face, etc. – daí a tosse, a coriza e os demais sintomas. O corticóide pode até atenuar alguns desses sintomas, mas de forma alguma está indicado no seu tratamento. Ao contrário, ele pode causar muitos danos.

Os efeitos colaterais dos corticóides podem ser devastadores. Eles ocorrem mais seriamente no uso a longo prazo. Mas mesmo em poucos dias, eles podem alterar profundamente o organismo. Uma listinha simples dos efeitos a curto prazo incluem:
- fraqueza muscular, hipernatremia (níveis de sódio altos no sangue), redução da imunidade (a criança fica mais suscetível a outras infecções), aumento do açúcar no sangue, ansiedade, irritabilidade e agitação, aumento do apetite, retenção de líquidos e outros.

A longo prazo, a lista é bem mais catastrófica:
- catarata e outros problemas oculares, osteoporose e fraturas, diabetes, hipertensão, depressão, edemas, gastrite e úlceras, redução da capacidade de cicatrização e atrofia na pele (com o uso prolongado de cremes e pomadas), depressão da imunidade e susceptibilidades às infecções (fungos, bactérias e vírus), alterações morfológicas (rosto em forma de lua, e uma bolsa de gordura na altura da nuca), supressão da produção de hormônios naturais, e muitos outros. Nas crianças, além de tudo, os corticóides a médio/longo prazo causam uma comprovada redução no crescimento.

A medicina tem investido na criação de formas de administração local – por exemplo, sprays nasais e aerossóis – para minimizar os efeitos colaterais – especialmente os de longo prazo – pois são pouco absorvidas pelo organismo.

Muito bem: felizmente os efeitos a curto prazo são menos dramáticos. Mas há um problema enorme que vem se consolidando em nossa medicina: o abuso dos corticóides, em especial nas chamadas “infecções de vias aéreas superiores’, que incluem os resfriados, otites, sinusites, gripes, e que se juntam a quadros comuns nos bebês como a bronquiolite, que já envolve um espasmo dos brônquios e pode ser mais séria. Antes usados apenas em casos mais graves de bronquiolites, asma e algumas sinusites, temos visto o uso constante de corticóides num grande numero de casos de viroses respiratórias banais – nas gripes e resfriados! Basta uma tosse mais forte e lá vai a receita: Predsim ou Prelone (guarde esses nomes) por 5 ou 7 dias. Virou uma banalidade.

A foto aqui anexa é um exemplo: um serviço de otorrino de um hospital no Rio onde praticamente todos os casos de otite – mesmo os francamente virais – recebem essa prescrição. Este aqui é emblemático, pois o médico receita um xaropinho de ervas considerado por muitos como placebo, junto com o corticóide, dizendo para a mãe que não passaria antibiótico pois o quadro era obviamente viral. Então porque o corticóide? Sem nenhum motivo, e contra qualquer recomendação científica, se usa uma medicação danosa e perigosa, que deveria ser reservada para casos mais graves e em doenças específicas. Afinal, cinco dias não causam dano…

Talvez. Mas e os bebês de creche, que adoecem a cada duas semanas? E as crianças alérgicas, que tem gripes, crises de rinite ou de bronquite freqüentes, e cujas tosses se prolongam por semanas? Quantas “inocentes” séries de cinco ou sete dias estarão tomando em um ano? Seis, oito, dez? Isso certamente já as faz entrar na faixa de alto risco para sofrer os efeitos devastadores do uso a longo prazo.

Uma conduta perigosa e totalmente desnecessária. E o pior: tenho visto mães e pais automedicando seus filhos com corticóides – inclusive bebês. Não é de se espantar – se os médicos prescrevem com tanta facilidade, acaba virando uma medicação banal. É comum ouvir no consultório – “mas toda vez que ela vai à emergência prescrevem esse remédio, imaginei que fosse inofensivo…”. E a automedicação envolve um outro risco muito grave: se uma criança toma estes remédios por mais de oito a dez dias, a retirada deve ser gradual e supervisionada por um médico. Senão, problemas sérios podem ocorrer.

Mais uma vez, a medicalização da saúde da criança, e da vida, levando a situações extremamente delicadas e perigosas. Na próxima vez que um corticóide for prescrito para seu filho, sugiro que você discuta a indicação e a necessidade com o médico.

Vejam aqui nos links dois bons artigos da Sociedade Brasileira de Pediatria: um sobre uso indevido de antibióticos e outro sobre resfriados e febres. Creio que em breve a Sociedade será obrigada a fazer um alerta sobre o uso indevido de corticóides.

http://www.conversandocomopediatra.com.br/website/paginas/materias_gerais/materias_gerais.php?id=120&content=detalhe

http://www.conversandocomopediatra.com.br/website/paginas/materias_gerais/materias_gerais.php?id=180&content=detalhe

Foto: Uma epidemia perigosa - e desnecessária

Resfriados e infecções respiratórias virais: o problema de saúde mais comum e banal na infância. Não há nada que cure os resfriados, claro, mas temos hoje boas opções para atenuar os sintomas. Mas curiosamente, é a condição que provoca mais medicação desnecessária, e mais recentemente, a mais absurda. Estamos diante de uma  perigosa epidemia de prescrições altamente prejudiciais à saúde.

O problema anterior era mais “simples”: antibióticos usados indevidamente. A chance de levar seu filho resfriado ou gripado a uma emergência e sair com prescrição (desnecessária) de antibióticos é algo em torno de 80%. Não trataria isso como um "erro médico". O contexto torna a situação mais complexa. O clima de uma consulta na emergência é indutivo a este tipo de prescrição: a precipitação e angústia (= pressão) dos pais, a preocupação do médico em medicar de alguma forma uma criança que não vai poder acompanhar (se bem que isso deveria ser possível), e outros fatores. 

O antibiótico mal indicado deve ser evitado a todo custo. A maioria dos danos é relacionada com alergias e alterações da flora intestinal. Alguns tem efeitos colaterais mais sérios e podem danificar o fígado e rim, por exemplo, mas são pouco usados em pediatria. E os efeitos mais graves são muito raros, felizmente. É interessante notar que o pior dano é para a sociedade, não para o individuo: o aumento da resistência bacteriana aos próprios antibióticos, que hoje gera um perigo real de termos doenças infecciosas incuráveis e muito mais letais.

Só que ultimamente tem ocorrido um problema talvez ainda mais grave. E com uma substância por um lado milagrosa, e por outro extremamente daninha e perigosa. Essa não precisa do acaso para causar danos sérios - só de tempo.

Chama-se corticóide (ou corticosteróides, popularmente chamados de  “cortisona”). Baseadas na molécula do cortisol, o chamado hormônio do stress, um variado grupo de produtos vem sendo oferecido pela indústria e muito bem assimilado pelos médicos. Tanto que vem sendo freqüentemente usados em indicações que não existem na literatura médica científica.

Como no caso dos antibióticos, ainda bem que esses remédios existem. O efeito dos corticóides é reduzir a inflamação. Inflamação é a reação essencial de defesa do corpo. No entanto, ela pode ser excessiva, ou se voltar contra nosso próprio organismo. Nestas ocasiões, o uso de corticóides muitas vezes é necessário.

Eles são fundamentais no tratamento de várias doenças agudas ou crônicas, e para a sobrevivência e a qualidade de vida de muitas crianças e adultos. São usados com sucesso em artrites, dermatites, reações alérgicas, asma, sinusites e rinites crônicas, lúpus, doenças inflamatórias do intestino, doenças auto-imunes; em formulações tópicas para casos de doenças da pele e dos olhos, rinites, asma e outras. Tem efeitos benéficos em certos tipos de meningite e vários tipos de câncer. Enfim, podem ser extremamente úteis. 

Em qualquer infecção existe algum grau de inflamação – no resfriado e na gripe, por exemplo, o vírus causa inflamação das vias aéreas, as mucosas do nariz, garganta, seios da face, etc. – daí a tosse, a coriza e os demais sintomas. O corticóide pode até atenuar alguns desses sintomas, mas de forma alguma está indicado no seu tratamento. Ao contrário, ele pode causar muitos danos.

Os efeitos colaterais dos corticóides podem ser devastadores. Eles ocorrem mais seriamente no uso a longo prazo. Mas mesmo em poucos dias, eles podem alterar profundamente o organismo. Uma listinha simples dos efeitos a curto prazo incluem: 
- fraqueza muscular, hipernatremia (níveis de sódio altos no sangue), redução da imunidade (a criança fica mais suscetível a outras infecções), aumento do açúcar no sangue, ansiedade, irritabilidade e agitação, aumento do apetite, retenção de líquidos e outros.

A longo prazo, a lista é bem mais catastrófica: 
- catarata e outros problemas oculares, osteoporose e fraturas, diabetes, hipertensão, depressão, edemas, gastrite e úlceras, redução da capacidade de cicatrização e atrofia na pele (com o uso prolongado de cremes e pomadas), depressão da imunidade e susceptibilidades às infecções (fungos, bactérias e vírus), alterações morfológicas (rosto em forma de lua, e uma bolsa de gordura na altura da nuca), supressão da produção de hormônios naturais, e muitos outros. Nas crianças, além de tudo, os corticóides a médio/longo prazo causam uma comprovada redução no crescimento. 

A medicina tem investido na criação de formas de administração local – por exemplo, sprays nasais e aerossóis – para minimizar os efeitos colaterais - especialmente os de longo prazo - pois são pouco absorvidas pelo organismo.

Muito bem: felizmente os efeitos a curto prazo são menos dramáticos. Mas há um problema enorme que vem se consolidando em nossa medicina: o abuso dos corticóides, em especial nas chamadas “infecções de vias aéreas superiores’, que incluem os resfriados, otites, sinusites, gripes, e que se juntam a quadros comuns nos bebês como a bronquiolite, que já envolve um espasmo dos brônquios e pode ser mais séria. Antes usados apenas em casos mais graves de bronquiolites, asma e algumas sinusites, temos visto o uso constante de corticóides num grande numero de casos de viroses respiratórias banais – nas gripes e resfriados! Basta uma tosse mais forte e lá vai a receita: Predsim ou Prelone (guarde esses nomes) por 5 ou 7 dias. Virou uma banalidade. 

A foto aqui anexa é um exemplo: um serviço de otorrino de um hospital no Rio onde praticamente todos os casos de otite – mesmo os francamente virais – recebem essa prescrição. Este aqui é emblemático, pois o médico receita um xaropinho de ervas considerado por muitos como placebo, junto com o corticóide, dizendo para a mãe que não passaria antibiótico pois o quadro era obviamente viral. Então porque o corticóide? Sem nenhum motivo, e contra qualquer recomendação científica, se usa uma medicação danosa e perigosa, que deveria ser reservada para casos mais graves e em doenças específicas. Afinal, cinco dias não causam dano...

Talvez. Mas e os bebês de creche, que adoecem a cada duas semanas? E as crianças alérgicas, que tem gripes, crises de rinite ou de bronquite freqüentes, e cujas tosses se prolongam por semanas? Quantas “inocentes” séries de cinco ou sete dias estarão tomando em um ano? Seis, oito, dez? Isso certamente já as faz entrar na faixa de alto risco para sofrer os efeitos devastadores do uso a longo prazo.

Uma conduta perigosa e totalmente desnecessária. E o pior: tenho visto mães e pais automedicando seus filhos com corticóides – inclusive bebês. Não é de se espantar – se os médicos prescrevem com tanta facilidade, acaba virando uma medicação banal. É comum ouvir no consultório – “mas toda vez que ela vai à emergência prescrevem esse remédio, imaginei que fosse inofensivo...”. E a  automedicação envolve um outro risco muito grave: se uma criança toma estes remédios por mais de oito a dez dias, a retirada deve ser gradual e supervisionada por um médico. Senão, problemas sérios podem ocorrer. 

Mais uma vez, a medicalização da saúde da criança, e da vida, levando a situações extremamente delicadas e perigosas. Na próxima vez que um corticóide for prescrito para seu filho, sugiro que você discuta a indicação e a necessidade com o médico.  

Vejam aqui nos links dois bons artigos da Sociedade Brasileira de Pediatria: um sobre uso indevido de antibióticos e outro sobre resfriados e febres. Creio que em breve a Sociedade será obrigada a fazer um alerta sobre o uso indevido de corticóides.

http://www.conversandocomopediatra.com.br/website/paginas/materias_gerais/materias_gerais.php?id=120&content=detalhe

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