Uma vitória da sociedade contra a publicidade infantil

07.04.2014
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A publicidade dirigida às crianças é covarde. Elas são muito mais suscetíveis à sugestão, e a grande maioria dos anúncios – utilizando heróis, super-poderes, personagens de desenhos e outras táticas do gênero – associa felicidade ao consumo de futilidades, brinquedos nada criativos, idiotizantes, ou alimentos tóxicos. O resultado – comprovado por vários estudos – é o consumismo, a troca de valores familiares e culturais significativos por valores materialistas e vazios (como o individualismo, a vaidade, a ostentação de marcas e o conformismo), a redução da criatividade, a obesidade, a distração, a erotização precoce, o estresse familiar, e a desconexão da criança e da família de dimensões mais significativas como a democracia e a vida coletiva. Só isso. Vejam o exemplo recente do Ovo de Páscoa do Bis (Lacta – Kraft), que incentivava crianças a “sacanearem” seus amigos com rótulos e bullying. Foi recolhido pelo Procon, entre acusações de “exagero”. Mas peraí, de quem foi o exagero?

 

Nossos filhos ficam pouco na escola (média de 3 horas e meia para o brasileiro). Nossa vida urbana se dá numa sociedade que não valoriza o público, onde as ruas são inseguras, os espaços recreativos são escassos e precários, o trânsito violento – tudo causado pela nossa incrível desigualdade. Com isso, encerramos as crianças em casa, e acabamos recordistas mundiais de tempo de TV na infância: 5 a 6 horas por dia. As crianças são submetidas a dezenas de anúncios publicitários por dia. 70% das crianças de 3 anos reconhecem o símbolo do McDonalds, mas apenas metade sabe seu sobrenome; reconhecem 200 marcas de produtos industrializados mas não mais que 10 frutas ou legumes. E como participam do processo decisório de 80% das compras da casa, muito da publicidade para adultos acaba dirigida ao público infantil.

 

Pois o movimento contra o consumismo infantil e pela regulação publicitária acaba de obter uma vitória espetacular na luta contra essa publicidade perversa. O CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – aprovou resolução que diz que “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço” é abusiva e, portanto, ilegal segundo o Código de Defesa do Consumidor.

 

A medida tem força de lei. Em princípio está proibido o direcionamento à criança de anúncios impressos, comerciais televisivos, spots de rádio, banners e sites, embalagens, promoções, merchadisings, ações em shows e apresentações e nos pontos de venda. A publicidade em escolas e creches também está incluída.

 

É claro que o mercado vai reagir. Em breve veremos reportagens nos jornais – em especial na Veja, claro, gritando contra o Estado Babá, falando em tutela absurda, berrando por “liberdade” e outros chavões típicos de quando a sociedade reage à opressão do mercado com medidas regulatórias para evitar os abusos. Leiam com senso critico. Vamos torcer para que a justiça mantenha esse março de transformação tão importante para nossas crianças.

 

Na minha opinião, o próximo passo deve ser proibir totalmente a publicidade de cerveja na TV. É um absurdo permitir que bebidas alcoólicas patrocinem futebol e carnaval. Nossas crianças são expostas a esses anúncios a qualquer hora do dia. E o que todos eles demonstram, do que nos convencem? A mensagem é clara e unânime em todas as marcas: para ter amigos, ser feliz entre amigos, ser aceito pelos amigos, no Brasil, é indispensável beber cerveja. E ora, qual o grupo etário que mais deseja a aceitação pelo outro, o pertencimento ao grupo, a amizade? O adolescente. É uma estratégia concertada, arquitetada, inteligente e covarde, para trazer crianças de 12-13 anos para o consumo de álcool. Criminoso.

 

E estão conseguindo. O resultado está em pesquisas como a da revista científica Drugs and Alcohol Dependence, que ouviu 15 mil jovens nas 27 capitais brasileiras para mapear como, onde, quanto e o que bebem os adolescentes brasileiros. O estudo constata que ao longo de um ano, um em cada três jovens brasileiros de 14 a 17 anos se embebedou ao menos uma vez. É extremamente alarmante. Outra pesquisa da UNIFESP mostra que 30% dos adolescentes brasileiros já dirigiram embriagados. As consequências, vemos nos jornais diariamente.

 

Então, o movimento está só começando. A vitória de hoje, conseguida por um grupo que começou numa conversa de mães (como a Laís Fontenelle) e hoje mobiliza mais de um milhão de pessoas pelo Brasil, deve ser só a primeira. Parabéns, e vamos em frente.

 

http://defesa.alana.org.br/post/81686429505/publicidade-dirigida-as-criancas-deve-acabar

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