Vogue e a Erotização Precoce

11.09.2014
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Revista da Vergonha 

Me desculpem, mas eu que sou muito dado a ver razão em muitos argumentos opostos, aqui vou ser radical. Radical porque sou pediatra, milito contra a publicidade infantil e os males que causa (muitos), porque defendo a infância e os direitos da criança, e me preocupo com o que a sociedade e o mercado estão fazendo com ambas. 

A Vogue publicou um ensaio fotográfico cujas fotos estão aqui. Um ensaio sobre sapatos! No mural de um amigo, onde vi essa matéria, havia comentários do tipo “a maldade está nos olhos de quem vê”. É muita cegueira não ver a gravidade dessa matéria. Quem não vê está de tal forma mergulhado na parte apodrecida do universo da mídia e da moda – que está amputando a infância dessas crianças – que perdeu inteiramente o senso crítico.

São meninas de 7, 8, 10 anos, apresentadas como mulherzinhas, lolitas, em poses sensuais e provocantes. Bocas e pernas abertas, ameaças de tirar a roupa, insinuações eróticas. É grotesco e absurdo e nojento sob TODOS os pontos de vista.

Estimula a pedofilia, sim. As poses são explicitamente sexualizadas. A erotização é grotesca. Do ponto de vista da criança, transforma a menina numa mini-adulta, promove sua objetificação (para quem lê a matéria e para quem posa) e estimula os valores de consumismo, futilidade, modismo, beleza padronizada, maquiagem como necessidade, adesão a marcas, tudo que o mercado quer e que danifica corpos, mentes e almas das meninas – e dos meninos também, aliás, vítimas quanto elas de uma cultura podre.

Como não perceber a exploração evidentemente sexual e comercial maldosa dessas meninas? Esse tipo de matéria estimula adultos a erotizar crianças e impedir que vivam os valores mais simples e as brincadeiras naturais da infância. Elas não estão imitando saudavelmente a mamãe roubando a maquiagem, não se iludam. Estão tendo sua infância amputada, sendo forçadas a entrar num universo que não é o seu, sendo instiladas de valores negativos e tendo seus espíritos deformados. Injetadas de materialismo, de ansiedade em seguirem padrões impostos e perversos de beleza (olhem a magreza das meninas) desde a idade escolar, onde deviam estar brincando de subir em árvores e jogar bola de gude, jogar bola e ir a praia. Em torno dos sete anos inicia-se a fase de latência, da teoria psicanalítica: um momento onde a libido da criança se volta para o mundo, para a cultura, para a natureza, para o desejo de conhecer, entender, criar identificações. E nessa hora vamos atirá-la no fosso da mercantilização e da erotização?

Não, meninas, parem de brincar. Vocês têm que ser mini mulheres, mini peruas, fúteis, magérrimas, fazer dieta, maquiarem-se, comprar roupas e acessórios. Tornem-se objetos de prazer e admiração do mundo masculino. Acreditem que para ter valor social precisam ter em vez de ser, especialmente ter beleza comprada a alto custo. Estreitem a definição da sua identidade, tão complexa e fascinante, renunciem ao seu infinito potencial para restringir seu valor ao quanto de apelo sexual possuem. Acreditem que sexualidade é aparência, é consumo, é performance. Esqueçam o afeto, o precioso senso de intimidade. E isso tudo… aos 8 anos.

Outras consequências da erotização precoce são graves e profundas. Altera as atitudes e crenças de crianças, fixa padrões estéticos, favorece a anorexia (doença grave e as vezes fatal), leva a alterações cognitivas, reduz a auto-estima. As meninas se auto-objetificam. Estudos associam depressão e outros transtornos a esse “moderno” fenômeno social. Além disso, a injeção destes valores desde muito cedo vai ter consequências mais amplas, na sexualidade dos meninos também, estreitando sua visão sobre a mulher e deformando seus padrões estéticos, favorecendo a opressão da mulher e promovendo violência sexual, obviamente. Deu, Vogue?

Desculpem a repetição, mas estou chocado e revoltado. É uma das coisas mais asquerosas que vi na mídia ultimamente. Logo abaixo, uma imagem semelhante, um pouco mais radical (loja Lilica Ripilica, roupas para crianças!!), que foi proibida pelo explícito estímulo à pedofilia e exploração sexual de meninas. É só um pouco mais radical do que estamos vendo na Vogue.

A revista deve uma retratação ou merece um boicote. Ou um processo judicial. Só lembrando, a psicologia infantil considera o estupro como uma forma de exploração e erotização da criança. Extrema, claro. Mas a que distância dele estamos aqui?

 

 

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