Como somos enganados pela mídia: o caso da alimentação e dos orgânicos

13.01.2013
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As escolhas que fazemos no dia a dia – e em especial os hábitos que ajudamos nossos filhos a criar – podem se refletir em enormes ganhos para sua saúde, que vão durar por toda a vida. Numa abordagem “integral”, pensar nossos filhos e nossas escolhas é também refletir sobre nosso estilo de vida e sobre a sociedade e a cultura em que vivemos. Nossos padrões de consumo, os limites que damos a nossos filhos, nossos princípios e valores – cada um destes fatores terá influência na saúde de nossas crianças, hoje – e em especial no futuro. Mais do que isso, muitas destas escolhas serão determinantes para o meio ambiente e para a sociedade onde eles viverão.Neste post quero discutir temas que se cruzaram de forma interessante numa série de reportagens publicadas há duas semanas: alimentação, meio ambiente e mídia. Estas matérias são exemplares para entendermos como somos influenciados (e muitas vezes manipulados) cotidianamente pela imprensa e pelos interesses do mercado de consumo.

Então: o Globo e vários outros jornais, incluindo o NY Times, publicaram matérias sobre um estudo de Stanford, publicado em uma conhecida revista médica indicando que produtos orgânicos não são melhores que os cultivados com agrotóxicos. Vejam as manchetes:

- O Globo: Ausência de aditivos químicos não é garantia de alimentação saudável – esta manchete figurava no topo da pagina da seção Saúde.
- Revista Time: Vale a pena comprar orgânicos? Talvez não
- New York Times: Cientistas colocam em dúvida as vantagens de alimentos orgânicos

O curioso é que os estudos se referiam apenas ao valor nutritivo dos alimentos orgânicos versus os convencionais. O que foi demonstrado é que o teor de nutrientes (proteínas, vitaminas, etc) é o mesmo.

Ora, que coisa. Uma batata com veneno tem tanta vitamina B quanto uma batata sem veneno. Qual você escolhe? Todas as três reportagens enfatizavam as semelhanças entre os dois grupos, mas nenhuma mencionou que a presença do agrotóxico em si é um dano potencialmente muito grave à saúde. Outros jornais deram manchetes menos tendenciosas, como a Folha de São Paulo: “Alimentos orgânicos não são mais nutritivos”.

Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Nosso modelo de desenvolvimento (monocultor e concentrador de terras) é baseado no agronegócio, que compra de enormes consórcios transnacionais (sempre com a onipresente gigante Monsanto) pacotes que incluem agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes em uso maciço, e assim multiplica seus lucros. A política agrícola brasileira é mais preocupada com a saúde financeira de grandes proprietários – os ruralistas, super-representados no Congresso – do que com a nossa saúde – ameaçada pelos venenos que consumimos, ou a da natureza, deteriorada pelos mesmos fatores e pela ambição burra e desmesurada (vide os horrores do novo código florestal).

O Brasil é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Desde a década de 1970 o crédito rural é condicionado à compra obrigatória de agrotóxicos pelos agricultores. Acredite se quiser: só pode comprar sementes (da Monsanto) quem mostrar recibo de compra de venenos – da Monsanto ou associadas.

O uso dos agrotóxicos nas lavouras brasileiras aumenta a cada ano. Pior: dez variedades vendidas livremente aqui são proibidos em 45 países. O brasileiro ingeriu, em média, 3,7 quilos de agrotóxicos em 2009: ao menos 15% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam resíduos de veneno (legais e ilegais) em um nível claramente prejudicial à saúde.

Os venenos persistem no ambiente e podem contaminar o solo e a água. Os danos ambientais são gravíssimos, e ainda mais os prejuízos à saúde dos trabalhadores no campo.

Entre os diversos efeitos nocivos dos agrotóxicos estão problemas neurológicos, endócrinos, imunológicos, reprodutivos e é claro, o câncer (linfoma não-Hodgkin, câncer de mama e próstata). A ligação entre doença de Parkinson e agrotóxicos está bastante comprovada. Redução na fertilidade masculina, hiperatividade em crianças, fissura palatina e síndrome de Down podem estar também relacionados ao uso de agrotóxicos. Não percebemos de imediato o mal que causam estes venenos, mas eles estão lá, minando nossa saúde.

Voltando às reportagens: a quem interessa manchetes claramente tendenciosas, que enganam o leitor e deixam a impressão de que agrotóxicos são inofensivos? O próprio Globo nos dá a resposta com uma declaração do vice-presidente da Associação Brasileira de Orgânicos: “existem vários estudos que tentam desqualificar nossos produtos, financiados por fabricantes de agrotóxicos, medicamentos…”.

As forças em torno da industria de agrotóxicos, fertilizantes e sementes modificadas são poderosíssimas, e vão tentar nos manipular e enganar. É preciso atenção, pois em última instância, as escolhas que fazemos são nossa responsabilidade. E as melhores escolhas podem trazer benefícios não só para a saúde de nossos filhos, mas também para o planeta onde eles viverão.

E só lembrando: os orgânicos estão cada vez mais acessíveis. Nas feirinhas orgânicas do Rio, já é possível encontrá-los às vezes mais baratos que os alimentos convencionais. E, dizem os adeptos, com um sabor muito melhor.

Foto: As escolhas que fazemos no dia a dia - e em especial os hábitos que ajudamos nossos filhos a criar - podem se refletir em enormes ganhos para sua saúde, que vão durar por toda a vida. Numa abordagem “integral”, pensar nossos filhos e nossas escolhas é também refletir sobre nosso estilo de vida e sobre a sociedade e a cultura em que vivemos. Nossos padrões de consumo, os limites que damos a nossos filhos, nossos princípios e valores – cada um destes fatores terá influência na saúde de nossas crianças, hoje - e em especial no futuro. Mais do que isso, muitas destas escolhas serão determinantes para o meio ambiente e para a sociedade onde eles viverão.

Neste post quero discutir temas que se cruzaram de forma interessante numa série de reportagens publicadas há duas semanas: alimentação, meio ambiente e mídia. Estas matérias são exemplares para entendermos como somos influenciados (e muitas vezes manipulados) cotidianamente pela imprensa e pelos interesses do mercado de consumo.

Então: o Globo e vários outros jornais, incluindo o NY Times, publicaram matérias sobre um estudo de Stanford, publicado em uma conhecida revista médica indicando que produtos orgânicos não são melhores que os cultivados com agrotóxicos. Vejam as manchetes:

- O Globo: Ausência de aditivos químicos não é garantia de alimentação saudável – esta manchete figurava no topo da pagina da seção Saúde.
- Revista Time: Vale a pena comprar orgânicos? Talvez não
- New York Times: Cientistas colocam em dúvida as vantagens de alimentos orgânicos

O curioso é que os estudos se referiam apenas ao valor nutritivo dos alimentos orgânicos versus os convencionais. O que foi demonstrado é que o teor de nutrientes (proteínas, vitaminas, etc) é o mesmo.

Ora, que coisa. Uma batata com veneno tem tanta vitamina B quanto uma batata sem veneno. Qual você escolhe? Todas as três reportagens enfatizavam as semelhanças entre os dois grupos, mas nenhuma mencionou que a presença do agrotóxico em si é um dano potencialmente muito grave à saúde. Outros jornais deram manchetes menos tendenciosas, como a Folha de São Paulo: “Alimentos orgânicos não são mais nutritivos”.

Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Nosso modelo de desenvolvimento (monocultor e concentrador de terras) é baseado no agronegócio, que compra de enormes consórcios transnacionais (sempre com a onipresente gigante Monsanto) pacotes que incluem agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes em uso maciço, e assim multiplica seus lucros. A política agrícola brasileira é mais preocupada com a saúde financeira de grandes proprietários – os ruralistas, super-representados no Congresso – do que com a nossa saúde – ameaçada pelos venenos que consumimos, ou a da natureza, deteriorada pelos mesmos fatores e pela ambição burra e desmesurada (vide os horrores do novo código florestal).

O Brasil é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Desde a década de 1970 o crédito rural é condicionado à compra obrigatória de agrotóxicos pelos agricultores. Acredite se quiser: só pode comprar sementes (da Monsanto) quem mostrar recibo de compra de venenos – da Monsanto ou associadas.

O uso dos agrotóxicos nas lavouras brasileiras aumenta a cada ano. Pior: dez variedades vendidas livremente aqui são proibidos em 45 países. O brasileiro ingeriu, em média, 3,7 quilos de agrotóxicos em 2009: ao menos 15% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam resíduos de veneno (legais e ilegais) em um nível claramente prejudicial à saúde.

Os venenos persistem no ambiente e podem contaminar o solo e a água. Os danos ambientais são gravíssimos, e ainda mais os prejuízos à saúde dos trabalhadores no campo.

Entre os diversos efeitos nocivos dos agrotóxicos estão problemas neurológicos, endócrinos, imunológicos, reprodutivos e é claro, o câncer (linfoma não-Hodgkin, câncer de mama e próstata). A ligação entre doença de Parkinson e agrotóxicos está bastante comprovada. Redução na fertilidade masculina, hiperatividade em crianças, fissura palatina e síndrome de Down podem estar também relacionados ao uso de agrotóxicos. Não percebemos de imediato o mal que causam estes venenos, mas eles estão lá, minando nossa saúde.

Voltando às reportagens: a quem interessa manchetes claramente tendenciosas, que enganam o leitor e deixam a impressão de que agrotóxicos são inofensivos? O próprio Globo nos dá a resposta com uma declaração do vice-presidente da Associação Brasileira de Orgânicos: “existem vários estudos que tentam desqualificar nossos produtos, financiados por fabricantes de agrotóxicos, medicamentos...”.

As forças em torno da industria de agrotóxicos, fertilizantes e sementes modificadas são poderosíssimas, e vão tentar nos manipular e enganar. É preciso atenção, pois em última instância, as escolhas que fazemos são nossa responsabilidade. E as melhores escolhas podem trazer benefícios não só para a saúde de nossos filhos, mas também para o planeta onde eles viverão.

E só lembrando: os orgânicos estão cada vez mais acessíveis. Nas feirinhas orgânicas do Rio, já é possível encontrá-los às vezes mais baratos que os alimentos convencionais. E, dizem os adeptos, com um sabor muito melhor.

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