A sobremesa da entrevista

28.10.2013
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Melhor que ser entrevistado por um jornalista de primeira, é ganhar uma sobremesa: Mauro Ventura publicou no seu blog alguns trechos da nossa entrevista para a coluna Dois Cafés e a Conta que não “couberam” na revista.

O pediatra Daniel Becker falou sobre vários temas importantes para a coluna Dois Cafés e a Conta, que ficaram de fora por falta de espaço. Daniel tem dois espaços de reflexão importantes, a página no Facebook Pediatria Integral e o site <www.pediatriaintegral.com.br>. Eis alguns tópico conversados na entrevista com Daniel, que dará a partir do dia 7 o curso Paternidade e Maternidade no século XXI, na Casa do Saber O GLOBLO, junto com Sandra Niskier Flanzer e Rosane Esquenazi, com mediação de Chris Nicklas:

- A medicalização em excesso das crianças. “Qualquer desvio de comportamento hoje em dia receitam tarja preta. A psiquiatria americana já medicalizou a bagunça, e o bagunceiro virou hiperativo. A criança mal comportada virou o impulsivo agressivo. Há dez anos, o Brasil consumia 75 mil caixas de Ritalina, agora consome 1,5 milhão. Muitas delas para crianças. O consumo de Ritalina para criança no Brasil é o segundo maior do mundo, atrás apenas dos EUA. Outro grande problema é que se está usando cortisona de maneira abusiva. Usa-se para tudo, viroses, gripes, otites. É um veneno para o organismo, diminui a imunidade, prejudica o crescimento, os ossos etc.”

- A mercantilização. “Chegamos ao ponto de se ter creche que coloca iPad em berçário. Mas o cúmulo é uma invenção americana: um penico com um iPad conectado. É primeiro ato de controle voluntário da criança, o momento em que ela tem que ter consciência corporal, e nessa hora você distrai a atenção dela. Hoje, você tem uma oferta de serviços cada vez maior. Põe na aula disso, na aula daqulo. Vamos brincar mais e agendar menos. Esqueça tanta ioga, inglês, culinária natação, e deixe que as crianças brinquem mais sozinhas. Menos TV e tablet, e mais presença, afeto e atenção.”

- A indústria de alimentos infantis. “As empresas produzem o que tem de mais nocivo e apoiam programinhas de exercício, de alimentação mais saudável, para lavar a imagem. Uma publicação da Nestlé para pediatras promove exatamente aquilo que eles vão contra, que é uma alimentação variada, rica em legumes e frutas. Eles falam em evitar carboidratos em excesso, que é o que oferecem. Você não tem que ser radical, pode dar um sorvete numa tarde de domingo, um brigadeiro numa festa, isso faz parte da vida, mas não pode ser a base da alimentação. Vi pediatra prescrevendo a seguinte alimentação do desmame (o primeiro alimento que a criança tem que tomar): a receita era uma banana com duas colheres de sopa de Leite Moça ou mel Karo, e dois biscoitos Maizena amassados. É diabete na veia. Isso tira da crança a capacidade de se interessar por alimentação natural.”

- A natureza. “As crianças de hoje são as que vão enfrentar a crise ambiental. Elas têm que ter a experiência da natureza, elas vão ter que defender o futuro. A natureza e a atividade física prazerosa são as duas grandes panacéias na modernidade, ajudam a escapar do sistema que te aprisiona nos remédios. O que faz bem à saúde faz bem à natureza e vice-versa”

- Médicos Sem Fronteiras. “Passei um ano num campo de refugiados no Camboja pelos Médicos Sem Fronteiras (ele era o único pediatra para uma população de 35 mil pessoas, atendendo por dia cerca de 200 crianças). Vi famílias destruídas. Mas vi um refugiado que criou uma ONG com um trabalho de juntava ervas medicinais, música tradicional, tecelagem, religião. As famílias que participavam melhoravam muito. Entendi que o que determina se você é saudável não é se vai ao médico ou não, é se tem um mínimo de qualidade de vida, uma vivência familiar, acessos a bens sociais básicos, a relação com o outro, a participação na vida coletiva, moradia, meio ambiente, recreação, lazer. Quando voltei, criei com amigos uma ONG, a Cedaps, que acabou moldando o que depois seria o programa Saúde da Família. Implantamos primeiro na (favela) Vila Canoas, depois no Parque da Cidade. O município viu os bons resultados e chamou a gente para implementar em Paquetá.”

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