Estrelas em Momento de Pouco Brilho

20.02.2014
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Dois vídeos – uma campanha do IDEC e uma propaganda manipulativa para um produto tóxico para crianças – são muito úteis para dissecar a publicidade da industria alimentar. E assim, nos ajudar a escolher o que é melhor para nossos filhos e evitar sermos enganados pela publicidade e por empresas que produzem lixo tóxico para crianças.

É curioso: a estratégia dessas empresas que fazem mal à saúde agora é associar sua imagem ao que faz bem à saúde. O paradoxo é tão absurdo que fico imaginando que os publicitários acreditam que nossa inteligência é nula.

Em várias publicações mostrei como a Nestlé e a Coca Cola patrocinam programas de TV, sites de internet e publicações médicas que afirmam exatamente o contrario do que essas empresas vendem. A Nestlé publica um guia para pediatras onde afirma que é melhor não dar farinhas açucaradas ou altamente processadas para crianças pequenas – exatamente uma das suas maiores fontes de propaganda e lucro. A empresa patrocinou, com um suplemento nutricional, um programa que justamente ajuda a melhorar a qualidade da alimentação de crianças e famílias (da nutricionista Gabriela Kapim). Ora, se vão comer melhor, não vão precisar do suplemento Nestlé, que as entulha de chocolate, açúcar, calorias e vitaminas artificiais em vez de alimentos naturais e saudáveis, como o programa promove. A Coca Cola gasta milhões para associar sua imagem ao exercício físico, dizendo que as suas “poucas calorias podem ser gastas passeando com o cachorro ou dançando com amigos – uma mentira, pois sabemos que as calorias de bebidas açucaradas são altamente tóxicas, provocando reações inflamatórias no organismo, favorecendo a obesidade, a adição, o diabetes e outras doenças. Associando sua marcas ao exercício ela lava sua imagem dos danos que provocam e ainda deixam uma mensagem ambígua: estimulamos você a fazer exercício, e se você não fizer, a culpa é sua. Se fizer, você pode consumir mais Coca Cola.

Vamos analisar a propaganda do Kapo, um “néctar” de frutas da Del Valle/ Coca Cola. Em três filmes, a empresa usou apresentadoras cuja imagem está ligada ao universo feminino, infantil ou à saúde: Astrid Fontenelle, Diana Bouth e Cynthia Howlett. Esta última, que esteve muito tempo à frente do Alternativa Saúde e depois do programa “Perdas e Ganhos” (que trata de pessoas obesas querendo perder peso), recomenda no filme “A Salada de Frutas Encantada” que o exemplo dos pais é o maior aliado para engajar as crianças a comer frutas, e dá uma receita de salada de frutas com granola.

Só que ao lado dos potinhos de frutas, são mostradas ostensivamente várias caixinhas de Kapo. O néctar de frutas da marca é o recordista, segundo pesquisa do IDEC, no uso de açúcar entre os seus similares: 26,2 gramas de açúcar em 200 ml. Mais que um refrigerante. Duas colheres de sopa cheia. Estamos falando de um produto que em excesso leva ao diabetes, obesidade, câncer, infarto, tudo bem demonstrado cientificamente. E mais: vá tentar fazer uma criança tomar um copo de suco de fruta natural ou comer uma maçã depois de ser massacrada com açúcar a esse ponto – de queimar a garganta e viciar o cérebro. O irônico é que a apresentadora termina o filminho com a salada de frutas dizendo “seu filho vai curtir as frutas com Del Valle Kapo”.

Os “néctares”, com esse nome que lembra os prazeres divinos da mitologia grega, são produtos que enganam em princípio: por lei, podem ter no máximo 20 a 40% de fruta, e a pesquisa identificou produtos que não chegavam a 10%. E são cheios de aditivos químicos, com embalagens voltadas para chamar a atenção das crianças, e recheados de açúcar. E como diz o IDEC, “existem estudos que relacionam o consumo de aditivos ao aparecimento de alergias em geral, intoxicação alimentar e hiperatividade…

O consumo excessivo de bebidas industrializadas açucaradas é um dos fatores responsáveis pelo aumento de casos de obesidade e de outras doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes”.

Já perguntamos aqui: porque colocar tanto veneno, porque vender um produto que faz tão mal e vicia crianças (o açúcar é comprovadamente uma droga aditiva)? Não daria para tentar, com tanta tecnologia, produzir algo realmente saudável e mais natural? Não: o lucro dos acionistas é muito, muito mais importante que a saúde dos seus clientes.

Triste também a atitude das apresentadoras, que vendem sua imagem ligada à saúde para produtos sabidamente nocivos às crianças. Não é à toa que a Coca Cola as contratou: essa associação cria a imagem mental de que o produto é saudável. Momento de muito pouca grandeza destas estrelas.

Em resumo: ofereça frutas a seus filhos. Em pedaços. Começando cedo e persistindo, eles vão comer e adorar.

Aqui, os links:

O anúncio da Del Valle / Coca Cola

http://www.youtube.com/watch?v=R6RoeR1CxL8

A pesquisa do IDEC:

http://www.idec.org.br/o-idec/sala-de-imprensa/release/idec-identifica-que-bebidas-no-possuem-teor-de-fruta-minimo-exigido-por-lei

O vídeo do IDEC – não deixe de ver:

http://www.youtube.com/watch?v=gOIUGWrAKPQ

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