Leite: alergia, intolerância, confusão e manipulação

20.02.2014
, , , , , , , ,  - 

Para crianças maiores, que já não são mais amamentadas, o leite de vaca e seus derivados são, em princípio, bons alimentos. Ricos em proteínas de alto valor, tem sabor agradável ao nosso paladar e seu conteúdo de cálcio, muito importante para o organismo, é bom e de alta disponibilidade. Os derivados acidificados como o iogurte e a coalhada tem a vantagem de disporem de lactobacilos, que hoje são considerados “boas bactérias”, ajudando na imunidade e em outros processos metabólicos.

Muito bem, isso se as coisas fossem assim, simples. Mas vivemos tempos complexos. Tempos onde os produtos que consumimos não são o que pensamos consumir. Tempos onde as mais diversas opiniões, não necessariamente baseadas em argumentos consistentes, seja na ciência, seja na tradição, adquirem valor de verdade e são disseminados nas redes sociais na velocidade da luz.

O leite de vaca in natura só pode ser consumido por crianças maiores que um ano. E “in natura” é muito relativo. Não sabemos o quanto de hormônios e antibióticos e outras substâncias são adicionadas ao leite comum – e isso vale para o leite em pó também. As vacas em currais “industriais” são tratadas muitas vezes de maneira absolutamente desumana – como a maioria dos outros animais de criação – e não há nenhuma fiscalização (como constatou o jornal O Globo nesta semana) sobre produtos e substâncias utilizadas nestes animais. Confiança é que não dá para ter. Neste caso, melhor opção seria pelo leite “orgânico”, produzido por vacas tratadas de forma mais natural, sem antibióticos e hormônios.

Já as fórmulas lácteas (+1, etc) são em geral adicionadas de açúcar, as vezes em quantidades muito acima do razoável, apenas para “viciar” a criança. Usar achocolatados é injetar açúcar na veia. Para uma bebida mais saudável para crianças maiores, é melhor usar o leite puro ou bater com uma fruta e cereais como aveia ou quinua em flocos.

Mais recentemente alguns fórmulas lácteas de “transição” (para crianças acima de 1 ano) vem surgindo no mercado, com menos açúcar e com adição de elementos como Omega 3. As empresas pintam maravilhas sobre esses produtos. Uma delas, a Mead Johnson, faz um marketing covarde e manipulativo com seu leite Enfagrow. Coloca o DHA, um tipo de Omega 3, como responsável pela inteligência, memória, concentração e tudo de maravilhoso no desenvolvimento do bebê. Como se fosse o único fator, ou o mais importante. E aí contrata a atriz Giovanna Antonelli para sua embaixadora. Ela vai num programa matutino da Globo fingindo que está falando generalidades sobre sua filha e introduz o assunto “fórmulas” com uma total falta de sutileza. A mensagem genérica é “agora sim, posso ficar tranqüila pois minhas filhas vão ficar inteligentes pois tomam Enfagrow”. Certamente, todas as outras crianças, cujas famílias não fizeram essa mágica opção, terão crianças burras. Só como observação, a fan page tem 130 mil curtidas. E note-se: este parece ser o mais rico em açúcar dos leites de transição.

Agora, a confusão clássica: na medicina “convencional”, existem duas situações onde o leite é claramente prejudicial à saúde: a intolerância à lactose e a alergia à proteína do leite. Ambas são constantemente confundidas. A lactose é o açúcar do leite. Ele não provoca alergia. O leite humano é rico em lactose. O que ela pode provocar é uma intolerância: em crianças maiores e adultos, é comum o quadro de flatulência e diarréias irregulares relacionado ao déficit de lactase, a enzima que metaboliza a lactose. Isso acontece também nas diarréias agudas e em especial nas mais prolongadas – por isso a recomendação de leites sem lactose nessas ocasiões.

A alergia ao leite pode ocorrer, e é comum, mas está relacionado ao seu conteúdo protéico, em especial a caseína e a lactoalbumina. Os quadros de alergia podem variar muito: desde refluxo, diarréias, erupções na pele, quadros respiratórios (rinite, asma) até choques anafiláticos, bem mais raros. Nestes casos os exames podem mostrar anticorpos contra as proteínas, especialmente nas crianças maiores. Nos bebês, o leite consumido pela mãe que amamenta pode causar sintomas pois uma parte das proteínas do leite de vaca ingerido pode chegar ao leite materno.

De novo, seria simples se fosse só isso. Mas aí surgem mais complicações: a nutrição e a medicina funcional, um novo ramo das “visões alternativas”, com muitos argumentos que parecem consistentes, demonizam o leite de vaca. Alergias, hormônios, câncer, doenças crônicas, tudo é imputado ao pobrezinho. As alergias seriam mediadas por outra classe de anticorpos, por isso a medicina convencional não poderia comprovar a alergia, mas ela existe e causa problemas, as vezes mais sutis. Pode ser.

E aí vem os naturalistas, dizendo que “leite produz muco”. Pode ser. Mas nenhum estudo científico demonstra essa relação. Na prática, algumas crianças com tendência alérgica, mesmo sem anticorpos ao exame, melhoram de quadros catarrais quando se retira leite e derivados. Cada vez mais os pediatras usam leites hidrolisados (onde se quebram as moléculas de proteína) em casos de refluxo, diarréias e alergias respiratórias.

Então: a confusão é boa, os palpites são inúmeros. Você escolhe em quem ou no que acreditar. Mas saiba diferenciar alergia ao leite de vaca e intolerância à lactose. Não use um leite com baixo teor de lactose (ou sem lactose) se você acredita que seu filho seja alérgico ao leite de vaca. Neste caso, é possível usar leite de cabra, de soja (ambos também controversos…) ou os mais “modernos”, como amêndoas, aveia e arroz. Lembre-se da importância do cálcio, que não está presente em quantidades significativas em alguns destes produtos. Desconfie de mensagens manipulativas que tentam lhe convencer que seu filho será mais inteligente apenas se consumir este ou aquele produto.

E acima de tudo, ofereça o leite materno para seu filho, se possível até dois anos. Sobre ele não há controvérsias.

Compartilhe !