Liberdade para as Crianças

12.07.2011
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Atividades zen… disfarçando consumismo com budismo.

Outro dia fui entrevistado sobre novas propostas de atividades para crianças, que antes eram restritas a adultos, como meditação, ioga e corrida (incluído maratonas). Estamos falando de crianças de 2 anos em diante…

Certamente algumas destas atividades poderiam até ser benéficas para crianças, mas exigem uma reflexão muito cuidadosa.

A reflexão é centrada em duas questões: o que queremos para nossos filhos; e de onde vem estas propostas e a sua popularidade?

Na 1a pergunta, os tempos de hoje são marcados pelo consumismo desenfreado, beirando o obsessivo. A marca deste consumismo é adquirir (acriticamente) bens e serviços, muitas vezes pra satisfazer os vazios criados justamente por uma vida superficial, voltada para o mundo material, para a cotidianidade, para o trabalho e a industriosidade, e que acaba gerando uma falta de contato consigo mesmo e com as dimensões mais profundas e significativas da vida – e portanto isolamento, anomia e as suas conseqüências mais sérias (neuroses, depressão, etc). E muitas vezes – muitas mesmo – uma enorme falta de contato com os filhos. E portanto uma dificuldade de lidar com eles e com o universo infantil de forma adequada. Todas estas faltas tem que ser supridas – e seguindo a ditadura do consumo, saímos em busca de adquirir mais serviços, atividades, consultas, cursos, e também – perigosamente – remédios.

Outro bom  motivo para esse consumo é ser mais, ser melhor que os outros: a competitividade, outra obsessão moderna. Projetamos nossa competitividade em nossos filhos. A gente vê isso muito como pediatra: pais tentando criar filhos mais capazes, aptos e equipados com todo tipo de habilidades que os façam sobreviver nesse mundo cruel, “sobrenadar” na multidão. A intenção é a melhor possível, mas…

Impomos a eles nossas próprias obsessões e tomamos atitudes baseadas na nossa ansiedade e em valores questionáveis destes tempos de hiperconsumo e superficialidade em que vivemos. De forma impensada, acabamos por gerar excessos e proposições inadequadas para nossas crianças. Será que estamos congestionando o tempo livre deles de mais consumo / serviços / compromissos? Pra que meu filho tenha mais, pra que seja mais?

Ioga e meditação são coisas maravilhosas, e muito importantes para desenvolver um adulto saudável. Mas será que a forma como estamos propondo este tipo de “compromisso” para as crianças não vai justamente na direção oposta da própria essência da ioga e a meditação? Ora, se antes da ioga vem o curso de inglês e depois a aula de ballet, a de gastronomia (existe…), a de violino, a de matemática e a de natação e musicalização… é um massacre.

Criança não precisa de tanta atividade. Precisa de pais, presença, olhar, cuidado e tempo livre. Criança precisa do brincar desestruturado. É a forma deles evoluírem, se conhecerem, desenvolverem suas personalidades, a criatividade. A menina com a boneca e as casinhas, o meninos com as caixinhas, o jogo de montar, os bonecos (e vice versa!)… contando histórias para si mesmos, voando na imaginação, criando seu próprio mundo. Isso é muito mais importante que meditar de forma estruturada, aprendendo uma técnica.

Criança medita no balanço, não precisa do tapetinho de ioga. Existe coisa mais meditativa que ficar 10 minutos no balanço, olhando o céu, árvore, chão, céu, árvore, chão…? Não será melhor que inspira – expira? Existe “mindfulness” e “trabalho de consciência” em idas para a praia, em ficar sozinho na beira d’água e construir túneis e castelos na areia com pás e baldes. Aliás, estudos científicos demonstram que contato com natureza melhora a hiperatividade e o deficit de atenção, e reduz obesidade.

Corrida? Correr para ganhar? Maratona, superação, suor, esforço, treinamento, disciplina – são conceitos do mundo infantil? Daqui a pouco teremos  o iron baby. Me parece no mínimo estranho.

Que tal correr no parque? Que tal ir pra mata e correr atrás de borboleta? O Rio tem o privilégio de oferecer lugares assim aos cariocas, em área urbana. Que tal correr com amigos ou fazer pique? Cadê os jogos de pique?

Vamos brincar mais e agendar menos. Infância é isso. E isso não é ser antigo – é ser razoável.

Aí entra a 2a questão: de onde vem estas propostas? Isso é a roda viva do mercado se impondo. É a necessidade de criar novas necessidades, que custem caro, sejam atrativas, e mantenham a roda girando. Para isso criam-se ilusões, hipnoses, sonhos de filhos mais produtivos, aptos, competitivos… felizes? É o mesmo mercado que impõe coisas muito mais graves, como o consumo de medicamentos para sermos felizes, ou o de cerveja para termos amigos. E a mídia, parte ou aliada do mercado, faz fortuna difundindo estas novas necessidades.

Vamos deixar o bom senso, mais uma vez, ocupar seu espaço. Criança precisa de tempo pra ser criança. E isso é de graça, e não por isso deixa de ser bom.

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